Rui Rio - Vinho do Porto, Porto do Vinho
O Porto é uma das grandes capitais do vinho a nível mundial. Que significado tem, para si, ser este ano o anfitrião da assembleia da rede Great Wine Capitals (GWC)?
O Porto foi um membro fundador da rede em 1998, juntamente com Bordéus, e este ano foi escolhido para inaugurar um novo ciclo de assembleias e conferências que têm como objectivo o reforço da cooperação entre as associações ligadas à vitivinicultura e que representem instituições do Novo e do Velho Mundo. Com esta conferência pretendemos, ainda, fomentar uma nova forma de estar da rede, mais voltada para a promoção do diálogo interinstitucional e para o exterior, não só para os diversos agentes como também para a população. Este foi o desafio lançado pelo Porto e aceite pelos restantes membros da rede e pelas instituições da cidade do Porto ligadas ao sector e ao turismo, ao meio empresarial e académico. O primeiro resultado deste desafio é a realização de uma semana de iniciativas em torno do vinho, ficando em destaque a cidade e o Norte de Portugal e aquilo que de melhor se faz em diversos domínios, desde a arte de bem receber às novas tecnologias.
E que balanço faz da participação do Porto nesse grupo restrito que engloba também Melbourne, Bordéus, São Francisco (Napa Valley), Cidade do Cabo, Bilbao-Rioja, Florença e Mendoza?
Francamente positivo. A criação da rede e a sua consequente dinamização foram também um desafio, um desafio que se ganha no dia-a-dia e nas relações que a Câmara Municipal do Porto mantém com as instituições que integram o Comité Local do Porto, nomeadamente a ACP-CCIP, a AEP, a AEVP, a CAN, a CVRVV, o IVDP, o PCVB, a UCPESBUC. Assim, a GWC, para além de ter sido pioneira no fomento do diálogo entre o Novo e o Velho Mundo, foi pioneira ao reunir na mesma mesa instituições diversas que têm, de uma forma mais ou menos directa, o vinho como denominador comum, proporcionando um trabalho articulado que muito beneficia a todos e à projecção internacional da cidade e de Portugal.
Mas não pensa que se poderia ir mais além? Que a cidade do Porto ainda está longe de ser encarada como um dos principais destinos turísticos do vinho a nível mundial?
Podemos sempre ir mais além e a Câmara Municipal do Porto, enquanto autarquia de uma cidade do vinho, empresta o seu nome ao mais internacional dos vinhos portugueses, está rodeada pela maior região vitícola do país, a dos Vinhos Verdes, e tudo fará para que isso aconteça. Neste ponto, parece-me essencial uma colaboração estreita entre todos – e quando digo “todos” refiro-me aos diferentes níveis de governo, às instituições, aos agentes do sector e do turismo, e às populações, pois todos eles estão presentes no território e trabalham para a competitividade do território. Um passo já foi dado com o Plano Estratégico Nacional de Turismo, que apresenta a “Gastronomia e Vinhos” como um dos dez produtos estratégicos do turismo, seleccionado pelo seu potencial de atractividade. Cabe agora ao Porto e ao Norte de Portugal, bem como às restantes regiões que partilham este importantíssimo recurso, afirmar-se pela sua qualidade, pelas suas especificidades e pela sua notoriedade. Por outro lado, e sob a iniciativa do Porto, através de uma parceria com um agente económico privado da cidade, a GWC lançou uma rede de agências especializadas no enoturismo que tem por objectivo promover fluxos turísticos entre as capitais.
Neste contexto, admite que a cidade do Porto deveria afirmar-se estrategicamente como a principal embaixadora do vinho português?
E que grandes eventos de forte impacte mediático (como o Grande Prémio da Boavista, por exemplo) deveriam reflectir essa imagem de marca? Para mim, o vinho é o embaixador e não o contrário; e, neste caso, é não só embaixador da cidade que represento como também de Portugal. Os grandes eventos são não só um excelente veículo de promoção, mas também um produto turístico a explorar pelo movimento que geram, daí que aproveitemos todos os eventos que a cidade acolhe para promover a marca, para mostrar que esta cidade é uma cidade do vinho, e é curioso que os turistas que nos visitam o sentem e vêem. Há desta forma um casamento feliz e que se adivinha duradouro entre ambos. O vinho pode funcionar, inclusive, como elemento-chave na captação de grandes eventos e reuniões internacionais, não lhe parece? Pode e funciona. O vinho é história, é património, é cultura, é saber e inovação. O vinho representa formas de estar e de ser e vende a imagem do território que lhe está associado, mas tem de existir uma complementaridade entre agentes. O território que o produz é simultaneamente o território que acolhe o visitante, por isso tem de estar preparado, têm de existir infraestruturas adequadas, uma oferta competitiva assente em recursos qualificados. Como estamos a falar da partilha de um território onde coexistem diferentes interesses e agentes, tem de haver diálogo e cooperação.
A verdade é que a cidade, aparentemente, pouco tem a ver com o vinho (e com o vinho do Porto em particular). É necessário olhar-se para a outra margem do rio, para o concelho vizinho de Gaia, para descortinar sinais evidentes dessa ligação ancestral…
De facto, os sinais mais evidentes em termos visuais estão em Gaia, na zona ribeirinha, fronteira ao Porto. Contudo, a história do Porto pode ser contada em boa parte pela História do Vinho, desde a sua origem. As suas marcas estão, desde logo, no desenvolvimento urbano, mas também no seu perfil económico, na arquitectura e na cultura da cidade. São, ainda, visíveis no relacionamento que a cidade tem com a sua região envolvente, o Norte de Portugal, bem como na sua projecção internacional. Ainda não há ninguém a querer mudar o seu nome para Vinho de Gaia. Eventos como o que agora estamos a promover, que se inspiram no mote “Porto do Vinho”, permitem essa descoberta, tornam-na evidente, e neles se vê que vinho e cidade se confundem. Todavia, o Porto é a cidade que alberga a sede da estrutura orgânica do IVDP, e da Comissão Vitivinícola dos Vinhos Verdes, e também onde se realiza o mais importante evento português do vinho de referência internacional… O Porto é o ponto de confluência de três vinhos: o do Porto,os do Douro e os Vinhos Verdes, é porta de entrada para a região, é plataforma de saída do vinho, foi, durante séculos e séculos o maior entreposto comercial, a cidade onde se fixaram os comerciantes ingleses e os principais homens de negócios do sector; é no Porto que está a maior universidade do país. A cidade afirma-se como uma cidade-região, contribui para a excelência e competitividade de um território que vai muito para além das suas fronteiras e, ao mesmo tempo, beneficia da notoriedade desse território.
Como presidente da Junta Metropolitana, não pensa que o Porto e os concelhos limítrofes (designadamente Matosinhos e Gaia) deveriam potenciar o fenómeno crescente da nova restauração de qualidade, das lojas de vinhos com conceitos inovadores, dos “wine bars” que têm surgido um pouco por todo o lado?
Devem potenciar e penso que já o apoiam, também eles são parte envolvida no processo, quer no enoturismo quer no relacionamento com o cliente, no lançamento de iniciativas, na formação de quadros e consumidores. Também aqui deve haver uma preocupação primeira com a prestação de um serviço de qualidade e com a arte de bem receber, promovendo os mesmos objectivos de excelência. Tudo isto deve ser, no entanto, construído em torno duma marca muito forte e muito antiga que é o nome “Porto”.
Em contraponto, não será um erro continuar a insistir na promoção da gastronomia do Porto e da imagem externa da cidade exclusivamente assentes nas tripas e nas francesinhas? Não estará na altura de subirmos um degrau?
Acho que já o subimos, apesar das tripas, por exemplo, fazerem parte e honrarem a história da cidade. Hoje vivemos tempos de afirmação da gastronomia tradicional, de valorização de produtos, de aromas e de sabores locais, elementos de uma identidade; há chefes que se afirmam e são reconhecidos internacionalmente levando e promovendo o melhor da nossa gastronomia e dos nossos vinhos a todo o mundo. No fundo, fazem também parte da nossa cultura que, enquanto elemento principal do turismo, são muito importantes para a nossa economia.
Concorda que a eventual aposta política e institucional do Porto nesta dimensão turística e de identidade colectiva deveria aproximar-se da lógica de Bordéus, onde é notório e profundo o envolvimento da autarquia local no mundo do vinho e nas suas potencialidades?
Esta aposta só será ganha se formos capazes de fomentar um diálogo que resulte numa acção concertada e partilhada por todos, se em conjunto definirmos uma visão que a espelhe e que possa ser trabalhada através das diferentes competências dos agentes. A autarquia tem dados passos firmes e de apoio a esta aposta, criou a rede, dinamiza um comité local que representa um conjunto diversificado de agentes, apoia e promove eventos dirigidos à população e aos agentes de enoturismo, um deles o prémio internacional “Best of Wine Tourism”, que desde 2003 tem mobilizado os agentes e distinguido a qualidade.
No plano pessoal, como encara o vinho? É consumidor regular? E quais as suas preferências?
Sou consumidor regular à refeição, embora beba pouco. No Inverno a minha preferência é, obviamente, o tinto, e aí fraquejo perante o Douro e o Sado. No Verão opto normalmente pelos brancos da região dos Vinhos Verdes. Nota-se, portanto, que o Norte está bem presente.
Partilha da opinião de que Portugal ainda estigmatiza o consumo do vinho (até no plano legislativo), apesar de ser reconhecidamente um dos principais países produtores a nível mundial? E o que haverá a fazer em tal matéria?
Tendo a vitivinicultura um papel muito importante no território e na cultura local e, como referi, tendo um efeito muito relevante na economia e no desenvolvimento regional, entendo que compete aos poderes públicos criar condições que permitam que a actividade económica se desenvolva com condições de eficácia e de competitividade.
Nuno Guedes Vaz Pires
blue Wine 17