O ARTIGO DE PAUL J. WHITE há meia dúzia de meses, aqui na WINE – A Essência do Vinho, já tinha avivado o meu orgulho de confrade do Dão e velho entusiasta de vinhos elegantes e aristocráticos. Afinal de contas, não é assim tão habitual que os “wine writers” e críticos estrangeiros – mesmo os mais conhecedores da realidade vitivinícola portuguesa – dêem palpites sobre os nossos vinhos para além das apertadas fronteiras vínicomediáticas do Douro e do Alentejo.
Desta feita fiquei apropriadamente entusiasmado quando soube, por um SMS do meu amigo e companheiro de profissão Luís Baila, cúmplice de paixão enófila, que a conceituada revista norte-americana “Wine Enthusiast” incluiu três vinhos do Dão na sua listagem anual das 100 melhores compras. Ainda por cima, a lista da “Wine Enthusiast” é das mais aguardadas nos Estados Unidos e resulta de um universo de 10.000 vinhos provados ao longo do ano inteiro. E como se não bastasse, dois desses vinhos do Dão ficaram nos primeiros dez lugares da lista: o Quinta do Penedo 2007, da Messias, em segundo lugar; e o Cabriz Colheita Seleccionada 2007, da Global Wines/Dão Sul, em nono lugar (o outro vinho do Dão a entrar neste “ranking” foi o Quinta da Garrida 2006, da Aliança, no 56º lugar). Longe vão os tempos, felizmente, em que o Dão se tornou vítima de si mesmo, quando o monopólio dominante que detinha no pequeno mundo dos vinhos portugueses, nos anos 70 e na primeira metade dos anos 80, deixou a região anestesiada no seu próprio sucesso, vendo-se ultrapassada pelo Alentejo, primeiro, e pelo Douro, logo a seguir. O processo de reabilitação não tem sido fácil nem rápido, como era de antever. A verdade é que se acumulam os indícios, quer em Portugal quer no estrangeiro, de que o mercado está disposto a compreender, a aceitar e a retribuir o esforço sério que está a ser feito pelos produtores do Dão desde há 15 anos, pelo menos. Acresce que uma parte cada vez mais significativa dos consumidores, entre os quais me incluo, manifesta cansaço crescente pelos vinhos demasiado extraídos, demasiado encorpados, demasiado madurões, muito fortes e alcoólicos, carregados de frutos negros, enfim, excessivamente musculados.
Ora o Dão, como bem sublinhava Paul J. White no já citado artigo, “oferece claramente uma alternativa”, ao disponibilizar “vinhos mais delicadamente perfumados, mais leves, com notas de frutos vermelhos (cerejas e morangos), taninos finos e acidez refrescante”, um pouco ao estilo de Borgonha. Não é por acaso que pode falar-se do Dão, hoje em dia, e citar de memória vários produtores interessantes que disponibilizam alguns dos melhores vinhos portugueses – Global Wines/Dão Sul, Quinta da Pellada, Quinta dos Roques, Quinta das Maias, Casa de Santar, Quinta dos Carvalhais, Vinha Paz, Quinta da Garrida, Quinta da Fata, Quinta da Falorca ou Quinta do Perdigão, entre outros. Façamos um brinde ao Dão, que o Dão merece!
Mas para não se julgar que esta crónica foi contaminada, de modo pouco magnânime, pelo “lobby” do Dão, aqui fica a referência a dois vinhos tintos que mais prazer me suscitaram nos últimos tempos, pela sua singularidade e características fortemente personalizadas, longe do “mainstream” que tudo uniformiza – e são ambos do Douro: o invulgar Vinhas da Ciderma Reserva 2004, da produtora e enóloga Mónica Figueiredo; e o sedutor Quinta da Gricha 2007, excelente cartão-de-visita da componente DOC da Churchill’s (o projecto contemporâneo da família Graham, cuja afamada marca de Vinho do Porto foi vendida aos Symington já lá vão 40 anos).
Luís Costa | Wine 41