A REGIONALIZAÇÃO é um tema estratégico e recorrente. Estratégico, porque a forma mais ou menos descentralizada de governação do nosso país é determinante para o sucesso da aplicação das políticas públicas. Recorrente porque, apesar de a regionalização ter sido inscrita na Constituição da República Portuguesa de 1976, a sua implementação foi sucessivamente adiada e dificultada, ao ponto de se ter acabado por exigir a sua aprovação por via referendária (de um ditame constitucional, sublinhe-se…). Hoje, os partidários e os antagonistas da regionalização continuam a brandir argumentos, cindindo-se o país opinativo, nada se fazendo entretanto. Mesmo a descentralização, sempre adiada apesar de parecer contar com o apoio de todos, vai acontecendo a conta-gotas, a arrepio do interesse nacional. Vem isto a propósito de uma campanha que tem vindo a ser feita por um prestigiado crítico de vinhos a favor de uma nova arrumação da regiões vitivinícolas portuguesas, quer nos seus livros sobre vinhos, quer nos artigos de opinião que publica regularmente num dos jornais diários nacionais de maior circulação. No fundo, propõe uma “re-regionalização” das regiões vitivinícolas portuguesas. Propõe repensar o seu desenho, bem como a reflexão sobre os diversos estilos de vinhos moldados pelo clima, pelos terrenos e pelas tradições. Nem mais. Devo dizer que, por princípio, sou muito favorável à reflexão de base, sem baias, sobre as mais diversas questões. Em vez de pensar a questão em função da legislação ou das condicionantes existentes, gosto de reflectir sobre a bondade das soluções em si mesmas. Contudo, penso que é demasiado curto, pouco sustentado, fazer assentar uma proposta altamente complexa em textos desta natureza. O desenho das actuais regiões vitivinícolas tem falhas, seguramente. Desde logo, é demasiado retalhado, não tendo escala que ajude à promoção externa do vinho português. Acresce que, cada vez mais, são suscitadas questões, por exemplo, sobre as castas admitidas em cada região ou sobre novas experiências com castas diversas e vinhos de variadas proveniências. Quer isto dizer que entendo que a reflexão sobre as regiões demarcadas tem todo o cabimento, podendo trazer novas e relevantes pistas para o desenvolvimento e a projecção dos vinhos portugueses. Não podemos é permitir alterações precipitadas porque pouco reflectidas. Textos deste tipo, muito embora sendo de opinião, têm um impacto muito relevante na opinião pública. Daí dever ser contida uma abordagem que pode ter reflexos muito relevantes na organização vitivinícola nacional, podendo lançar bastante confusão nos interessados nesta matéria. Coisa bem diferente é apresentar uma arrumação diversa e pouco habitual dos diferentes tipos de vinho, associando-os a certos tipos de gastronomia – tendo como objectivo a sua apresentação ao público. Quanto a isso, nenhum comentário temos a fazer. Contudo, é apenas isso que se pretende? Tanta veemência na defesa desta tese tem, apesar de tudo, a vantagem de lançar e manter um debate que é pertinente. Voltando ao princípio desta breve reflexão: um novo fôlego no debate sobre a regionalização, que gostaria que viesse a acontecer em breve, poderá ter implicações nas regiões vitivinícolas portuguesas. Tal como sabemos que a definição das regiões-plano foi feita em função do território, designadamente as bacias hidrográficas, também sabemos pelos muitos exemplos que conhecemos pelo mundo fora que as regiões políticas podem ter um relevantíssimo papel na projecção externa dos vinhos que nelas têm origem. Mas aí, seguramente, estaremos perante um debate competente e sustentado, desde logo pela enorme carga política a que estará sujeito.
Manuel de Novaes Cabral | Wine 42