ESSÊNCIA DO VINHO / PORTUGAL • BRASIL
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OPINIÃO: Parque de sensações

17-05-2012

Por Luís Costa, Editor da revista WINE e subdiretor de informação da RTP

Durante anos a fio, o mundo do vinho em Portugal viveu ensimesmado, fechado sobre si mesmo, encerrado numa campânula de interesses pequeninos e provincianos sem ligação direta aos consumidores. Felizmente, há cerca de 10 anos este panorama cinzento e nada estimulante começou a mudar. O acesso ao mundo do vinho passou a ser mais fácil e descomplexado. Ganhou cor, tornou-se sedutor, conquistou uma imagem de modernidade. E angariou novos públicos, mais jovens, mais urbanos, mais cosmopolitas.

O Essência do Vinho no portuense Palácio da Bolsa – e agora os múltiplos eventos gerados pela empresa homónima em todo o Portugal e mais recentemente também no Brasil – é simultaneamente o paradigma e o marco essencial dessa profunda mudança, dessa renovação que operou uma quase revolução no mundo português do vinho.
Para os enófilos como eu, simples e comuns mortais apenas unidos pelo enorme impacto sensorial que o vinho nos provoca, que estamos ligados a este cativante universo pelas amplas sensações de diferente natureza que ele nos suscita, a renovada edição anual do Essência do Vinho - Porto é uma espécie de visita imperdível a um enorme parque de diversões – ou, melhor dizendo, a um fascinante parque de sensações.

Entre os amigos que se reveem, os vinhos ainda desconhecidos que se provam e os produtores e enólogos que se volta a contactar – tantas vezes após um longo ano de intervalo, assim revendo memórias da edição antecedente – o Essência do Vinho - Porto é um enorme palco de experiências anualmente renovadas.

Todos os anos retenho especialmente dois ou três momentos da minha passagem pelo Palácio da Bolsa metamorfoseado na mais bonita festa do vinho em Portugal. Por regra, retenho o vinho que mais me surpreendeu e a prova comentada que me encheu as medidas. Este ano não foi exceção. Parti com enorme expectativa para a prova dos “Dez vinhos mais exóticos de Portugal”, protagonizada pelo Rui Falcão, e a prova não defraudou – bem pelo contrário. Também era difícil que assim não fosse, quer pela competência do especialista quer pela natureza e qualidade singular dos vinhos em prova: do branco Casal Figueira 2010, único vinho do mundo 100% da casta Vital, passando pelos inusitados Quinta do Mouro 2002 do grande Miguel Louro e do Foz de Arouce 2001 (de vinhas velhas, com predominância da casta Baga), até ao superlativo e extraordinário Madeira Malvasia com mais de 40 anos, de uma acidez vibrante – só comparável ao Bastardinho 30 anos de Azeitão, que integrou igualmente esta prova – e com um fim de boca prolongadíssimo, que dura, dura e dura…

Quanto ao vinho que mais me surpreendeu, embora a escolha seja difícil porque experimentei algumas boas novidades, fiquei absolutamente rendido a um espumante da região dos Vinhos Verdes. Fala-vos do Casa do Valle Grande Reserva Bruto 2003, das castas Azal e Arinto, com engarrafamento feito em Junho de 2004. Ora aí está um dos segredos e particularidades deste muito bem sucedido espumante, que tem a extraordinária relação preço-qualidade que o faz chegar ao mercado na casa dos 11€: um estágio em garrafa de 80 meses. Desse prolongado repouso resultou um espumante que surpreende pela acidez vibrante e equilibrada, com uma mousse envolvente e requintada, que enche a boca de um prazer digno dos melhores vinhos deste género. Para além de ter passado a ser presença regular lá por casa, a partir de agora associo espontaneamente este Casa do Valle Grande Reserva Bruto 2003 aos três “esses” que melhor o caracterizam: um espumante seco, sedutor e saboroso. Diz o seu produtor que harmoniza preferencialmente com sushi, ostras, vieiras, percebas, saladas ou carnes brancas. É verdade. Mas acabei de testá-lo com umas lulas recheadas com alheira de porco bísaro e puré de espargos verdes e saiu-se igualmente bem. Definitivamente, a minha grande revelação do Essência do Vinho 2012.


/ WINE 68