Mais complexo e com potencial de guarda

 

A Quinta do Crasto juntou-se definitivamente ao grupo dos que acreditam que no Douro também é possível produzir bons vinhos brancos, necessariamente menos imediatos à maioria dos palatos. A segunda aposta nesse segmento é o Crasto Superior branco 2013, elaborado a partir de Verdelho e Viosinho, de vinhas da zona de Muxagata, Douro Superior. De cor palha, mostra-se inicialmente renitente, acabando por revelar aromas sobretudo minerais, ligeira polpa de fruta branca e barrica elegante (é o primeiro vinho branco do Crasto estagiado em madeira – 75% passou por lá). Na boca, esse estágio nota-se mais, ao mostrar grande volume, fruta parca mas muito mineralidade e uma acidez que prenuncia reunir condições para evoluir bem. Manuel Lobo, enólogo, está agradado com o resultado e realça o facto de o processo de “bâtonnage” (movimentação das borras do vinho) não ter implicado qualquer contacto do líquido com o oxigénio, dado que as barricas foram colocadas sobre uma plataforma que as movimentou, evitando assim a necessidade de abertura. Foram produzidas 8.900 garrafas, com PVP de 14,90€/unidade.

Depois de um pré-lançamento num evento da distribuidora Heritage Wines, o vinho foi lançado quinta-feira, durante um jantar vínico no restaurante The Yeatman, em V.N. de Gaia, que contou ainda a presença de Pedro Almeida, diretor de vendas da Quinta do Crasto. No jantar foi recuperado o Crasto Superior tinto 2007 (que parece ainda um jovem em cor, com aromas de fruta vermelha madura, algum mirtilo e um ligeiro couro, ainda com frescura e acidez, pecando apenas pelo final breve – vinho com PVP de 14,90€, lançado em 2009), provando-se ainda o Quinta do Crasto Tinta Roriz 2010 (retinto, aromas silvestres dominantes, a que se juntam alguns torrados, de taninos bem vivos e uma acidez marcante que prolonga o final de boca – PVP de 40€), o Crasto Reserva Vinhas Velhas 2012 (retinto, ainda pouco expressivo aromaticamente, a revelar alguma fruta e madeira, com taninos que pululam, estando numa fase de integração e evolução em garrafa, curiosamente com a fruta a vencer a barrica na prova – PVP de 30€) e o Quinta do Crasto Vintage 2001, em muito bom momento de forma.

No capítulo gastronómico, Ricardo Costa e equipa demonstraram que merecem a estrela Michelin que o guia vermelho reconfirmou nos últimos dias. Das criações da noite, um duplo destaque: o salmonete estava irrepreensível, em salmoura com puré de aipo e molho de crustáceos; o “Caldo Verde The Yeatman 2014” revelou-se uma fantástica desconstrução da versão tradicional, em que o creme de couve, o chouriço e os pedaços de batata, todos com apresentação sofisticada, à primeira colherada de imediato nos remeteram para a memória marcante da versão popular.

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