Por breves instantes, esqueça os arrufos políticos, as agruras dos vaticínios económicos, os tremeliques dos bancos deste mundo. O exercício que proponho, e que sempre que considero justificável insisto partilhar, é o de olharmos para mais alguns bons exemplos do que tem sido feito ultimamente.

A Sogrape apresentou um dos grandes vinhos portugueses, que de algum modo vive (injustamente) à sombra do mais famoso tinto do país, o Barca Velha (o criador de ambos foi o eterno Fernando Nicolau de Almeida). A verdade é que o Casa Ferreirinha Reserva Especial, sob atual batuta do enólogo Luis Sottomayor, merece todas as honras, como o comprova esta 16ª edição. A colheita 2007 – lançada sete anos após a vindima na Quinta da Leda, Douro, algo cada vez mais raro no universo do vinho resultou em 33.000 garrafas, que começam por ficar disponíveis junto dos sócios do “Clube Reserva 1500”, chegando em novembro às prateleiras das lojas e garrafeiras mais exclusivas. O PVP ao consumidor deverá oscilar entre os 120€ e os 150€, mas tal como tantos outros produtos “super premium”, os vinhos de exceção não têm preço.

Ainda pelo Douro, Marcelo Lima e Anthony Smith contrataram o enólogo Jean-Claude Berrouet, que durante quatro décadas tratou um dos mais famosos vinhos do mundo, o Château Petrus, para consultor de enologia. Trabalhará diretamente com Rui Cunha, enólogo residente que também sabe bem os caminhos que pisa. Num momento em que tanto se fala dos prós e contras do investimento estrangeiro em Portugal, é notável o que a dupla Lima/Smith está a fazer no capítulo dos vinhos, com a aquisição e requalificação das quintas da Covela (Vinhos Verdes), Boavista e Tecedeiras (Douro). E não falra a Borgonha (Maison Champy) e muito em breve o negócio da distribuição de vinhos, no Brasil natal de Marcelo Lima.

Empreendedorismo é igualmente sinónimo de família Soares. Conhecida pelas garrafeiras e o negócio da distribuição de vinhos e espirituosos no Algarve, ergueu do pó um dos projetos mais “trendy” dos vinhos portugueses, a alentejana Herdade da Malhadinha Nova, que estabeleceu um novo paradigma de enoturismo no país. Sem medo de arriscar, inaugurou recentemente o primeiro “Mixology & Education Studio”, dedicado à arte da mixologia e formação de bar. E um destes dias, a WINE fará questão de comprovar o trabalho que os Soares estão a realizar na algarvia Quinta de Mata Mouros (este ano fizeram por lá a primeira vindima).

Derradeira nota para dois senhores da gastronomia “made” in Portugal. Vitor Sobral tem mais um restaurante no Brasil. Depois do sucesso da Tasca da Esquina, em São Paulo, é agora a vez do conceito se estender a João Pessoa. Lisboa (Tasca e Cervejaria da Esquina) e Luanda (Kitanda da Esquina) aplaudem de pé, tal como nós, o trabalho do chefe português.

No Porto, cidade que deixou de saber o que é ficar em banho-maria, um dos mais recentes exemplos de dinâmica empresarial é vizinho da sede da Essência do Vinho. Chama-se Cantinho do Avillez e vai de vento em popa. José Avillez teve a sobriedade necessária de perceber que implementar um restaurante de sucesso de Lisboa (e na capital tem vários espaços com assinatura) numa outra cidade, não é uma corrida de 100 metros, antes uma minimaratona, que requer compasso, fôlego e cabecinha no lugar. Parabéns a todos.


Nuno Guedes Vaz PiresWINE-A Essência do Vinho