Por Jancis Robinson.


Recentemente, retirei-me. Não da escrita sobre vinhos – não consigo sequer imaginar- me fora, voluntariamente, do mágico mundo do vinho. Apenas me afastei de uma posição meramente honorária.

No início de 2014 terminei o limite de três anos como presidente do Wine & Spirit Education Trust (WSET). Os meus deveres estavam longe de ser onerosos. Tudo o que tinha que fazer era, uma vez por ano, ficar em palco na histórica londrina Guildhall, entregando os certificados e prémios aos mais bem-sucedidos alunos do WSET, quase 200. A maioria passou ao mais desafiante exame, o “Diploma”, e chega de todas as partes do mundo para participar nesta cerimónia.

A cada ano fico cada vez mais impressionada pelo tipo de pessoas que decide sujeitar-se, bem como aos mais chegados e amados, a este desafiante teste, que envolve sérias provas cegas e uma elevada dose de estudo, apenas um nível abaixo dos super assustadores exames para “Master of Wine”.

Ian Harris, chefe-executivo do WSET e o homem responsável pela internacionalização do programa, é o mestre-de-cerimónias e lê sempre uma breve descrição sobre cada candidato, juntamente com o respetivo nome – o que nem sempre é fácil face a tantas nacionalidades. Ao longo dos últimos anos reparei que disparou a proporção de homens de negócio que se tornaram estudantes, talvez por uma questão de tendência, que lamento, de encarar o vinho como um veículo de investimento. Mas há igualmente muitos outros casos de pessoas de negócios persuadidas por outras razões, académicos, advogados, administradores de hospitais, pesquisadores e cientistas, bem como, claro, aqueles que trabalham a tempo inteiro na indústria do vinho.

É extraordinário como estes cursos se tornaram tão populares e, graças ao longo caminho percorrido por Ian Harris, o WSET afirmou-se, sem dúvida, como líder global na educação sobre vinho. No ano passado, 50.000 pessoas, de mais de 50 países e 17 idiomas, frequentaram um dos cursos WSET e este ano acreditam que poderão atingir-se as 60.000.

Sinto-me profundamente orgulhosa pelo facto de ser uma equipa britânica a liderar este campo cada vez mais popular. Sinto-me igualmente orgulhosa por ter sido a terceira presidente honorária do instituto, a seguir a Hugh Jonhson (co-autor do “The World Atlas of Wine”), que sucedeu a Michael Broadbent. Tento sempre que a cerimónia de entrega de diplomas e troféus decorra rapidamente, porque imagino que as centenas de alunos e convidados pretendam ir para o momento de receção seguinte. Mas, Michael levava muito a sério a questão das congratulações aos melhores estudantes, pelo que as cerimónias de graduação eram bem mais longas do que as minhas.

E do outro lado 
do mundo…

Quando em 1975 comecei a escrever sobre vinho senti-me particularmente próxima do WSET, tendo sido contratada como assistente do editor de uma revista de vinhos estritamente pela minha habilidade organizacional, estando bem ciente na altura que muito pouco sabia sobre vinho. De imediato inscrevi-me no WSET, que na altura tinha apenas seis anos. Considerei que o valor dos cursos era incalculável, não apenas por me obrigar a aprender sobre vários tópicos, como a destilação de gin, o que obviamente não me deixou eufórica. Em 1978 passei o “Diploma” e conquistei um primeiro prémio, na altura designado “Rouyer Guillet”. Ainda guardo o modesto troféu de 15 centímetros de altura, em madeira, um contraponto com o atual prémio para os alunos de hoje, a “Vintner’s Cup”, como é conhecida: uma viagem de enoturismo no valor de mais de 6.000 euros, a custódia de um ano de um bonito troféu em prata e um decanter magnum finamente gravado.

Os cursos evoluíram consideravelmente desde então e há agora edições especiais sobre espirituosos, apenas para os que trabalham na indústria hoteleira, sendo admirável o facto de os conteúdos serem revistos a cada triénio. Como editora e autora de livros de referência no vinho, sei muito bem como o mundo do vinho está em constante mudança. Por razões óbvias não me poderei referir ao padrão de ensino e suspeito que varie consideravelmente, mas acredito sinceramente que o WSET faça um esforço enorme para manter níveis estandardizados.

Talvez o mais espantoso sobre o WSET (que parece ser pronunciado de forma diferente em quase todos os países) é a popularidade que atingiu na Ásia. Este ano é esperado que a totalidade de estudantes da China, Hong-Kong incluído, ultrapasse o número de britânicos. Numa viagem recente que realizei por Hong-Kong e Xangai pude, literalmente, conhecer centenas de estudantes do WSET, todos parecendo-me genuinamente entusiasmados com a possibilidade de estudarem vinho de uma forma estruturada e formal. Apoiei a receção social de provas e jantares de vinhos dirigidos a graduados, nas duas cidades, e fiquei muito impressionada pelo nível de conhecimento e comprometimento, o que é admirável face o estado do mercado do vinho chinês, que há 10 anos era meramente embrionário. Talvez devido aos meus livros, especialmente o “The Oxford Companion to Wine”, com textos recomendados em cursos WSET, encontrei um extraordinário número de jovens estudantes asiáticos que já estão familiarizados com o meu trabalho. E é ainda notável que as duas últimas vencedoras da “Vintner’s Cup” tenham sido mulheres asiáticas… Homens ocidentais, cuidem-se.

E quem é o próximo presidente honorário do WSET? O primeiro não britânico, beneficiando do facto de já falarmos de uma verdadeira instituição internacional. Em janeiro passei o testemunho a Gérard Basset, entre outros títulos “Master of Wine” e “Master Sommelier”. Vai considerar desafiante sorrir 200 vezes para uma câmara numa só noite, tal como o foi para mim na primeira cerimónia de prémios a que presidi, algumas horas após a morte da minha mãe. Mas, estou certa que este francês que reside no Reino Unido, considerado há quatro anos o melhor sommelier do mundo, se sentirá tão orgulhoso quanto eu por ser presidente honorário de uma tão reputada instituição como o WSET.

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Redação | WINE-A Essência do Vinho