Por Jancis Robinson.  

O meu armário de copos, cuidadosamente projetado com prateleiras que permitem que eles fiquem pendurados pelo pé, tem testemunhado as modas da indústria ao longo das últimas décadas. Quando me iniciei como consumidora de vinho lembro-me de ficar bem contente por beber através de um copo Paris goblet, aquele em forma de tulipa. Receio que agora o odiasse. O vinho iria certamente ressentir-se da espessura do vidro e do aro, que impediriam a perceção plena dos aromas do vinho.

Pensei ser uma verdadeira profissional quando, em finais dos anos 70, fiz uma formação sobre copos de vinho, preparada pelo meu bom amigo Michael Broadbent, com aprovação da ISO – Organização Internacional de Normalização. Os copos ISO têm apenas cerca de seis centímetros de altura, forma de tulipa relativamente estreita e uma haste curta. Certamente serão suficientes para o propósito, mas nos dias de hoje, em que nos habituamos a copos bem maiores, ficam claramente aquém do que esperamos. Ocasionalmente neles sirvo Vinho do Porto, dado que é um vinho fortificado e o copo ISO ajuda a percecionar a quantidade, mas espanto-me com o facto de um número significativo de produtores e outros agentes económicos ainda os usar para apresentar vinhos.

Uma vez experimentado um copo de dimensão decente, um que seja no mínimo tão alto como um livro de bolso e que possua uma forma adequada, não há realmente volta a dar – é como nunca ter tido acesso a um corta cápsulas de garrafas, pois a partir do momento em que experimenta a conveniência e funcionalidade de um…

O austríaco Georg Riedel merece todo o reconhecimento pelo facto de ter tornado os profissionais do vinho mais cientes da importância da qualidade de um copo. Reconhecidamente não por razões altruístas, realizou várias provas durante as décadas de 80 e 90 do século passado para comparar, invariavelmente de forma favorável, os seus copos com aqueles mais comummente usados. Certamente elevou os meus padrões mínimos de vidro fino, forma correta do balão e um pé decente, que permite agitar o vinho sem lhe alterar a temperatura. Mas nunca alinhei muito com a ideia de que um determinado vinho precisa sempre de um determinado copo.

A gama Riedel, com copos de diferentes tamanhos e formas, é realmente incompreensível. Presumivelmente a família Riedel tem um anexo, prateleira após prateleira, com copos rotulados, mas a grande conclusão que persigo é a de que um bom copo, com o tamanho e a forma certos, é suficiente para todos os tipos de vinho.

Até mesmo alguns produtores de Champagne, incluindo muitos dos mais reconhecidos, começam a admitir que o copo ideal para champanhe será em tudo semelhante ao de um copo standard de vinho. Tal como outros, que elaboram Porto e Sherry. E fui sempre das que achei ilógico servir vinhos brancos em copos mais pequenos que os de tintos. Os vinhos brancos podem ser tão subtis como os tintos, podendo beneficiar de um copo com grande balão para expor toda a complexidade aromática.

Mas, no topo das minhas prateleiras, ganhando pó, está uma série de copos Riedel Bordeaux, que todos julgávamos, há uma ou duas décadas, ser os melhores para apreciar vinhos tintos. Agora parecem algo ridiculamente grandes e pesados. Isto para não falar do tempo que demoram a lavar. Tenho ainda um copo com uma estranha forma – uma saliência aqui, uma concavidade ali –, supostamente desenhado com todo o cuidado para potenciar o melhor de cada vinho.

Da Áustria à Itália

Passei entretanto por uma fase em que privilegiei os copos com formas angulares em detrimento dos arredondados, enchendo os copos tão longe quanto o diâmetro máximo, de modo a aumentar a área de superfície de onde provêm os aromas, mas atualmente os meus copos preferidos levaram-me para um novo campo sensorial de prazer. Os copos Zalto, originalmente elaborados por uma família com raízes em Veneza, são soprados à mão, não contêm óxido de chumbo para não ficarem nublados e combinam uma forma angular com o vidro mais fino com que me tenho deparado.

Como que experienciando as alegrias de um corta cápsulas, não há ponto de retorno. Qualquer outro copo parece excessivo. Os Zalto são de tal modo delicados que nos fazem sentir em harmonia com o vinho, embora sejam também extremamente frágeis. Mas, mesmo assim foram projetados para serem lavados e secos numa máquina de louça regular. A verdade é que ao longo dos anos as quebras que temos tido têm sido por nossa culpa.

Os copos apresentam vários tamanhos, dos quais os mais amplos, o Bordeaux e o Burgundy, me parecem demasiado grandes para um uso doméstico. Usamos os copos de medida média, chamados Universal, para vinhos de todos os tipos. Notei, todavia, numa das minhas mais recentes viagens pela França, que o produtor de vinhos brancos da Borgonha, Jean-Marc Roulot (que projetou simples mas funcionais suportes em madeira, na adega, para computadores e notebooks para nós, que escrevemos sobre vinho), serve os Meursaults nos mais estreitos Zalto, com forma para vinhos brancos, o que também funciona bem.

Poucas centenas de metros mais abaixo da rua, Coches of Coche-Dury, produtores de alguns dos mais procurados e caros Meursaults, servem amostras dos excecionais vinhos aos afortunados que os podem provar em pequenos e divertidos copos que fazem lembrar miniaturas de copos de conhaque. Até a temível provadora Lalou Bize-Leroy, do Domaine Leroy, usa copos semelhantes, com formas que certamente Georg Riedel e os filhos, que agora gerem o negócio, não aprovariam, enquanto Pierre-Yves Colin-Morey usa o Zalto Universal.

No Domaine Ponsot, os provadores estão familiarizados com balões finos e largos com a crista Ponsot gravada – inteligente. De facto, tenho descoberto, em cada visita que faço pelo mundo do vinho, uma significativa atualização sobre os copos usados. Nada que seja cedo de mais, diria. E congratulo os italianos, sempre tão conscienciosos da “la bella figura”, por terem sido dos primeiros no vinho a investir em copos de qualidade. O único problema, para quem escreve a correr sobre vinhos como eu, é termos de lavar cuidadosamente cada copo a cada novo vinho. É uma ótima ideia para o primeiro vinho do dia, mas acaba por ser impraticável lavar o interior do copo com líquido apropriado ou água a cada vinho.

Aplaudo, todavia, aqueles que reconhecem o quão importante é o copo para os verdadeiros apreciadores de vinho e sinto-me feliz por existir, atualmente, uma vasta gama de copos bem mais barata que os Zalto.

 

Leia mais em JancisRobinson.com

Redação | WINE-A Essência do Vinho