Por Jancis Robinson

Existem várias paisagens que nos ficam sob a pele. Apenas estive uma vez, e por pouco tempo, num safari no sul de África, mas desafio qualquer um que tenha sido exposto à dureza daquele terreno que fique imune à sua chamada. Por entre as regiões vitivinícolas, o Douro consegue a mesma proza de nos entrar pela consciência.

A paisagem é tão extraordinária… Vales de patamares de vinhas sobem desde o rio até ao que o nosso horizonte consegue visualizar, por entre algumas estradas sinuosas e conjuntos de casas. O terreno parece tão inóspito (e assemelha-se a algo árido no pico do verão) que parece extraordinário ser ali possível crescer algo. Só mesmo a vinha para conseguir sobreviver por entre o xisto. Mas, adivinhamos que os custos de produção possam ser altíssimos, até porque a mecanização é virtualmente impossível na maioria das vinhas. A economia de produção de Vinho do Porto está equilibrada, ao contrário do crescimento da urbanização e dos padrões de vida portugueses.

Na mais recente visita ao Douro dei por mim a observar a paisagem e a refletir sobre como parece impossível estar ali um centro de produção de vinho. A área de interesse para os wine lovers está a expandir-se à medida que os produtores procuram locais mais frios, rio acima (tivemos de acrescentar um mapa do Douro Superior na 7ª edição do “The World Atlas of the Wine”). Talvez não surpreendentemente, o número de produtores de Vinho do Porto tem decaído. Os grandes tornam-se cada vez maiores e os pequenos acabam engolidos. Até os próprios portugueses admitem que apenas duas empresas (dirigidas por ingleses) britânicas dominam completamente as exportações de Vinho do Porto. A família Symington, cujas marcas mais conhecidas, Graham´s, Warre´s e Dow´s, são geridas separadamente, é agora proprietária da Cockburn´s, depois de, presumivelmente, ter respirado fundo e ter repetido em surdina o compromisso para o futuro da “indústria do Vinho do Porto”, antes de retirar a empresa das mãos confusas da companhia americana dona do whiskey Jim Beam, em 2010.

A grande rival, The Fladgate Partnership, está assente nos nomes Taylor’s e Fonseca, aos quais juntou a Croft e Delaforce, não há muitos anos, tendo mais recentemente cedido a Delaforce à Real Companhia Velha, apenas para entrar seriamente nos vinhos do Porto envelhecidos, com a aquisição da Wiese & Krohn, no ano passado.

Os franceses também representam uma parte importante, o que não é tão surpreendente quanto isso, dado que a França é desde há muito o principal mercado recetor de Vinho do Porto, em volume. De facto, o maior problema económico do Douro é hoje fornecer os supermercados franceses com Vinho do Porto barato e jovem a partir de vinhas velhas e caras.

A Quinta do Noval é, provavelmente, a mais famosa quinta do Douro, graças à fantástica qualidade de um Porto produzido, por vezes, a partir de dois hectares da vinha Nacional. No início dos anos 90, a família proprietária procurou vendê-la e os dois compradores mais interessados eram ambos franceses. A história encontra Jean-Claude Rouzaud, dos champanhes Louis Roederer, que fora seduzido pelo proprietários da Ramos Pinto a passar o fim de semana anterior na Quinta de Ervamoira. Gostou de tal forma da quinta e da família que acabou por adquirir a Ramos Pinto e de tal modo apreciou a qualidade do varietal Tinto Cão 1981 que acabou por estar na origem da onda de produção de vinhos DOC Douro, algo que tem transformado a região nas últimas duas décadas.

A Quinta do Noval terá sido comprada por outra companhia francesa, a Axa Millésimes, em 1993, e os Rouzauds têm continuado a expandir o seu império de vinho, pelo que, coincidentemente, cada um dos famosos rivais Pichons of Pauillac, em Bordéus, Lalande e Longueville têm uma empresa irmã no Douro. Mas, apenas a Ramos Pinto termina uma prova servindo também champanhe.

Durante esta visita provei uma garrafa do famoso Tinto Cão 1981 e pude perceber o quão inspirador terá sido. Esteve na origem do vinho Duas Quintas, que agora tem uma produção de 500 mil caixas anuais, tornando-o um dos melhores exemplos do vinho DOC Douro – mesmo que hoje seja mais fácil vendê-lo a preço elevado em Angola do que em Portugal.

 O fenómeno dos vinhos DOC

 Recordo-me bem da minha epifania com os vinhos de mesa do Douro ao apreciar Barca Velha e alguns vinhos servidos, sem rótulo, nas quintas de Vinho do Porto, durante refeições nas décadas de 70 e 80. Foi no entanto necessário o Duas Quintas para que um grupo de enólogos jovens e profissionais da região ajudasse a impulsionar a produção de vinhos DOC Douro, tornando-se uma séria categoria de vinhos, por direito próprio. Devido à restrita legislação, quota e envelhecimento, é necessário capital considerável para produzir Vinho do Porto. Mas, a produção de vinhos DOC é bem mais fácil, o que permitiu que uma nova geração se infiltrasse, por vezes numa escala bem pequena.

Um dos heróis dessa nova vaga é, sem dúvida, Dirk van der Niepoort, da família de origem holandesa Niepoort, conhecida pelo Vinho do Porto. É um daqueles produtores que tem real curiosidade e compreensão pelos vinhos do mundo. As viagens à Borgonha e à Alemanha inspiraram-no a fazer uns (muito vagamente) vinhos borgonheses, o tinto Charme e o branco Coche, a que juntou o “alemão” Tiara. Um iconoclasta, que tem feito de tudo para agitar perceções e hábitos junto da nova geração que trabalha no Vale do Douro. Por entre a rica coleção de castas do Douro, prefere Davids em detrimento de Golias, com a Tinta Amarela a ser uma das favoritas.

Uma das mais interessantes conversas que ouvi durante esta visita ao Douro foi a de um grupo de produtores, que debatia quais as castas do Douro que estão “in” e “out”. Todos estavam de acordo sobre a mais famosa (mas não a mais plantada) Touriga Nacional (em 2013, a emblemática casta quase se recusou a amadurecer). A Tinta Roriz (Aragonês ou Tempranillo) estará aparentemente “out”, dado poder produzir vinhos incomodamente tânicos no Douro. A Touriga Franca está definitivamente “in”, Tinto Cão e Sousão serão novas tendências. A Tinta Barroca já esteve “in”, ficou “out” mas talvez esteja novamente de regresso ao melhor. O Bastardo está no limbo. Ah, e as vinhas velhas do Douro, a primeira região demarcada do mundo, estão sempre “in”.

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