Por Nuno Guedes Vaz Pires, Diretor Executivo da revista WINE

Na qualidade de diretor-executivo da EV-Essência do Vinho, e desta publicação, passo boa parte do ano a viajar pelos mais diferentes mercados da Europa, das Américas, de África e da Ásia. Maioritariamente são viagens em que a EV é a empresa que gere, no terreno, ações de formação e de promoção dos vinhos portugueses, não apenas vinhos DOC como Vinho do Porto e Vinho Madeira. Por força das circunstâncias, estas viagens permitem-me um apuro de conhecimento das especificidades de cada mercado, onde muitas vezes é necessário operar de forma distinta consoante a cidade e/ou região de um só país. Estabelecem-se contactos diretos com os consumidores locais de cada uma dessas realidades, os profissionais que nessas realidades operam e, claro, os jornalistas e outros líderes de opinião. E para ajudar a contextualizar a realidade dos vinhos portugueses em cada país é fundamental visitar com regularidade lojas especializadas e supermercados, bem como restaurantes de diferentes segmentos.

Noutras edições tive já oportunidade de me referir a mercados das Américas, pelo que desta vez centro-me no mercado europeu, aquele que continua a representar (vejam-se os mais recentes dados disponíveis, de 2014) mais de metade das exportações portuguesas de vinho. Desde logo, a conclusão que tiro é que poderíamos estar mais bem posicionados. Porquê?...

As vendas de vinhos portugueses na Europa continuam ainda a estar demasiadamente amparadas nos chamados mercados da saudade. Junto de comunidades de emigrantes, os vinhos portugueses vendem-se bem e encontram-se com grande facilidade. Fora dessa “zona de conforto”, os vinhos portugueses têm conquistado uma notoriedade crescente muito graças aos esforços empreendidos pela ViniPortugal, pelas Comissões Vitivinícolas Regionais, pelo Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e pelo Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira – e, admita-se, pelo empreendedorismo individual de produtores e associações de produtores, toda uma nova geração que há muito entendeu que a venda de vinhos deverá ser feita à escala global.

Todavia, continuam a existir falhas evidentes. Boa parte dos importadores que trabalham os vinhos portugueses nesses países limita-se aos rótulos de sempre e utiliza os canais de sempre para propalar os vinhos de Portugal. E não se pode mais estar num evento ou numa feira internacional de prestígio, num dado mercado, sem dominar o idioma local. Pois claro, nenhum de nós é obrigado a falar inglês, francês, alemão ou outro idioma, mas então que haja a humildade e bom senso de contratar (e, previamente, formar) um tradutor que na hora do contacto direto com o público ajude a traduzir o que importa dizer sobre um determinado vinho ou projeto. Além disso, importa conquistar uma presença nas cartas de vinho da generalidade dos bons restaurantes de cada cidade, não apenas nos chamados restaurantes étnicos. É ainda fundamental, sobretudo quando estamos a representar um produto português, dizer bem de Portugal, enaltecer o que de bom temos, usar uma linguagem e uma postura nem pessimistas nem arrogantes, mas sim que desperte a curiosidade daqueles que não nos conhecem bem (ou de todo).

É fundamental centrar esforços numa nova geração. Aproveitar os excelentes valores dos novos produtores e enólogos portugueses para os promover e colocar em contacto em ações internacionais e, tão ou mais importante, tentar uma renovação geracional daqueles que representam os vinhos portugueses nos mercados europeus. Para que comuniquem com maior doçura e menos acidez, para que ajudem a descobrir novos espaços de restauração para maridar com os vinhos portugueses, para que auxiliem a criar um passa a palavra mais prolongado, por mais públicos. Bem vistas as coisas, falta-nos uma atualização europeia no chip do vinho português. E isso só depende de nós.

WINE - A Essência do Vinho