Por Charles Metcalfe

Em que lugar do mundo seria de esperar que um crítico de vinhos publicasse uma opinião sobre um vinho, sem fazer ideia do preço e do lote final? A resposta, claro, é Bordéus.

Todos os anos, milhares de críticos, comerciantes de vinho, empresários da restauração e enófilos viajam até Bordéus para a semana em que os produtores dão a conhecer as novas colheitas. Há provas durante todo o dia. Algumas são específicas, apontamentos individuais de châteaux famosos (e não conseguirá provar os vinhos sem que se desloque até lá e com marcação prévia). Algumas são grandes provas para o “trade”, organizadas de acordo com a “appellation” (a grande prova de vinhos de Saint-Émilion, por exemplo) ou por grupos de propriedades (a mais conhecida é a prova organizada pela Union des Grands Crus de Bordeaux, subdividida por “appellation” e realizada em diferentes châteaux).

Aquilo que os críticos e os “merchants” provam não é mais do que uma mera indicação de como serão os vinhos no final. Os vinhos apresentados nesta semana “en primeur” muitas vezes não contêm o “vinho da imprensa” (vinho levemente prensado depois da fermentação das películas, mais rico em taninos do que o vinho que ainda não tenha sido prensado). A amostra de um vinho “en primeur” é habitualmente retirada de uma barrica nova, ainda que quem o extraia fique feliz ao explicar que o vinho final apenas deverá ter 50% de barricas novas.

Esta ideia de mostrar vinhos novos sem ainda estarem engarrafados não é um exclusivo de Bordéus. Outras regiões francesas o fazem, como a Borgonha e o Vale do Ródano. E a prática estendeu-se a mais locais, como algumas regiões de Itália e de Espanha, em que o vinho é vendido muito antes de estar engarrafado. É uma ideia tentadora a de conseguir dinheiro antes de o produto deixar as instalações de quem o elabora – dinheiro que poderá em parte servir para suportar as despesas associadas ao engarrafamento e estágio.

Todavia, se formos provar Borgonhas seremos informados de quanto vinho será vendido assim. Em Bordéus não fazemos ideia. Pela experiência dos últimos 30 anos enquanto crítico, sei que o preço de venda depende muito do que nós, críticos, dissermos; e, mais especificamente, da avaliação que Robert Parker, o influente crítico norte-americano, fará. Outros fatores, como o comportamento do mercado e a quantidade de vinho produzido – são também importantes, claro. Mas, as reações dos comentadores de topo a estes vinhos “en primeur” representam um papel determinante no preço a estipular.

Este ano, Robert Parker anunciou que não se deslocaria a Bordéus, até junho, para provar os jovens 2013. Pânico! O oráculo não falaria e logo quando os produtores precisavam de vender os vinhos! Ainda para mais, 2013 fora um ano difícil, com um clima (que permanece) atípico. A primavera fora fria e húmida, pelo que as vinhas não tiveram tanto fruto como o habitual. Os rendimentos caíram. O que não foi necessariamente uma má notícia para os produtores de topo. Depois dos excelentes anos de 2009 e 2010, seguiram-se duas colheitas que desapontaram, 2011 e 2012 – não foram maus anos mas ficaram, em qualidade, longe de 2009 e 2010. Uma pequena vindima de bons vinhos permitiria aos châteaux manter os preços elevados, mesmo apesar da quebra de procura da China, anunciada como a grande esperança oriental nos gloriosos anos de 2009 e 2010.

Mas, isso não iria acontecer. Apesar de um julho muito quente e de um agosto quente, embora tempestuoso, as vinhas ainda teriam de ser vindimadas tarde e em meados de setembro choveu. Alguns produtores perderam produções nas tempestades de granizo de agosto e mesmo as uvas que resistiram continuaram a lutar pela maturação. A acidez era elevada e os açúcares baixos. O único aspeto positivo desta instabilidade climatérica é que o julho muito quente retirou qualquer sabor “verde” às uvas.

Os produtores com capacidade financeira para trabalhos nas vinhas e bolsos fundos que permitissem eliminar as uvas menos ricas dos vinhos de topo, ficaram numa posição que lhes permitiu elaborar vinhos tintos decentes, alguns até bons – não tendo tentado, em demasia, extrair taninos que não estivessem maduros. Alguns conseguiram pequenas quantidades de vinhos relativamente leves, atrativos, com boa fruta e uma acidez fresca (os vinhos brancos secos, pelo contrário, floresceram nestas condições e foi também um bom ano em Barsac e Sauternes).

Mas, mesmo face a este esforço, como se comportaria o mercado sem o habitual aconselhamento de Robert Parker?

Um sistema complexo

Bom, o mercado de vinhos de Bordéus é peculiar. Antes que o vinho seja adquirido pelo consumidor final, é primeiro vendido pelo château a um corretor de vinhos (“courtier”), seguindo-se um comerciante de Bordéus (“négociant”), um importador (que poderá também ser o eventual retalhista) e, possível e adicionalmente, o retalhista final. Cada uma destas etapas tem a sua corte. Pouquíssimas propriedades vendem diretamente aos importadores ou ao público (isto pode parecer surpreendente nos dias que correm, de vendas diretas pela Internet, mas é verdade).

Num ano como 2013, em que os vinhos estiveram longe do “patamar de investimento” e o mercado morno, poderia pensar que os “négociants” não estariam particularmente voltados para comprar muito vinho. Afinal, não tendo certezas de vendas no mercado porque investiriam tanto? (Os “négociants” ainda têm vários vinhos de 2011 e 2012 em cave...) Mas, temendo algum prejuízo de alocação na próxima ou duas próximas colheitas de exceção, formam uma obediente fila para pagar cada ano. Assumem o risco de não conseguirem muitos proveitos em anos menos bons (podendo até não chegar a cobrir os custos) mas num bom ano conseguem lucros substanciais.

Durante anos, vários observadores vaticinaram o fim deste sistema, que continua. Há dois anos, Château Latour, um dos mais emblemáticos rótulos do Médoc, anunciou que sairia deste sistema “en primeur”. De 2012 em diante lançaria os vinhos diretamente da adega apenas quando considerasse que estariam bebíveis. Este ano provei, como habitualmente, no Château Latour a colheita 2013 e depois outros vinhos, que acabaram de lançar dos stocks: Pauillac de Château Latour 2008, Forts de Latour 2006 e Château Latour 2004. Sabia que os 2013 não estariam ainda disponíveis para venda, mas deram-nos os preços das três outras colheitas. Tudo muito claro.

Noutra esfera da tradição, este ano o Château Pontet-Canet, bem conhecido em Pauillac, anunciou o preço do vinho antes de algum jornalista o provar ou comentar, antes mesmo de algum “négociant” de Bordéus o ter experimentado. Todos se sentiram na obrigação de adquirir o vinho, desde que Parker atribuiu notas elevadas, nos anos recentes, aos Pontet-Canet. Mas, durante a minha incursão por Bordéus, ficou claro que os “négociants” o compram com um considerável ressentimento.

Será que estes sinais vão quebrar o sistema de vendas dos vinhos bordaleses? A semana “en primeur” é um momento anual de reunião do “trade” de todo o mundo que talvez demore ainda algum tempo a desmoronar. A “Place de Bordeaux”, como é localmente designada, existe há séculos. E o mais provável é que continue a existir, pelo menos durante mais algum tempo.