Com James Suckling e Roger Voss

Algumas das sumidades mundiais do setor vínico – entre as quais James Suckling e Roger Voss – refletiram o futuro, inovação e estratégias do Vinho do Porto e seu território, na Alfândega do Porto, na segunda edição do Port  Wine  Day – celebração do Vinho do Porto que o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP) organizou pelo segundo ano e que decorre  precisamente no  dia (10 de setembro)  em que nasceu a  primeira  região  demarcada do mundo: o Douro Vinhateiro, em 1756. Ora, 259 anos volvidos, a iniciativa  congregou cerca de 40 jornalistas da imprensa mundial, “players” e especialistas  nacionais e  internacionais do setor, tendo ainda como estratégia abrir-se, este ano, à cidade e ao mundo, delineando estratégias sinérgicas.

“No ano passado, centramo-nos mais no setor, mas nesta edição resolvemos contaminar o evento à cidade, sair para o mundo, fazer este dia ´sair da caixa´. E a adesão dos restaurantes, lojas e bares foi surpreendente. Podemos dizer que o Porto Wine Day se tornou uma marca, uma espécie de ´sound byte´, sendo que a nossa postura é a de um gradualismo estratégico”,  sustentou Manuel Novaes Cabral, presidente do IVDP, à WINE – A Essência do Vinho. “A ideia é projetar a região do Douro no mundo, focarmo-nos no futuro de uma das melhores regiões de vinho do mundo, como forma de impulsionar a economia e cultura da região e também do Porto cidade, mobilizando audiências e ligando o evento à comunidade”, realça.Jantares vínicos, provas e animação nas caves, um mapa do circuito de bares, restaurantes e lojas disseminaram pela cidade o espírito do Vinho do Porto, celebrando o território de forma empírica.

“Douro 3.- Passado, futuro e questões pertinentes” foi o tema que abriu o dia e que juntou James Suckling, Roger Voss e Ana Teresa Lehmann. James Suckling, um dos fundadores da #Wine Spectator”, hoje autor do seu próprio website e um dos mais influentes críticos de vinho do mundo, apelou “à necessidade de Portugal se focar essencialmente na promoção de algo que é único no mundo: o Vinho do Porto”, para além dos vinhos DOC, “já que o Vinho do Porto é um produto cheio de história, tradição e valor”. Contudo, crê que o preço devido ainda não lhe está a ser atribuído. “É necessário saber conjugar imagem, valor e luxo para obter um preço justo, à altura da unicidade do produto”.

Apesar de anuir na qualidade de relevo de alguns vinhos DOC, realçou que alguns ainda têm “muito ´make up´, como álcool e madeira, e precisam consolidar-se”. “Presentemente, creio ser urgente concentrar esforços na imagem e futuro do Vinho do Porto, reinventá-lo, bem como a imagem do Douro e de Portugal no mundo, porque este é um produto único, que tem de ser vendido como um produto de luxo. Na Ásia, por exemplo, ainda muito poucos  conhecem o Douro. Há muito para comunicar ainda”, realçou. “O Vinho do Porto não é só um líquido precioso. Tem de ser transmitido como uma experiência evocativa, a sua origem, história, um todo que Portugal tem de comunicar”, sustentou ainda à WINE. “Portugal tem de conseguir comunicar esse valor como os franceses o fizeram, por exemplo, no contexto da sua cultura. Esse é o grande desafio”.

Também Roger Voss, outra celebridade do mundo do vinho, editor europeu da “Wine Enthusiast”, especialista em vinhos franceses e portugueses, , sobre os quais escreve há 25 anos, frisou que “o Vinho do Porto é um produto único no mundo, com um enorme potencial, e o futuro é concentrar esforços no futuro e desenvolvimento, criando estruturas económicas que permitam às novas gerações conseguir produzi-lo, nomeadamente aumentando o ´benefício´”.

“Hoje há muitos produtores que queriam produzir Vinho do Porto e não conseguem. Dedicam-se então a produzir vinhos DOC. Mas peço que deem à próxima geração, condições e a oportunidade para fazerem Vinho do Porto” , advogou, acrescentando que “o Vinho do Porto hoje precisa dos vinhos tranquilos para se desenvolver e vice-versa”. “Portugal é o país que se segue. Isso já se sente. Por isso, o futuro é apostar num nicho que é único”, confessou à WINE.

“Luxo, esforço e estratégia” foi outro dos painéis onde se exploraram os caminhos que os vinhos do Douro e do Porto têm que percorrer para se afirmarem no segmento super premium, reunindo Thierry Consigny e Guta Moura Guedes. A manhã terminou com um debate transmitido em formato “live stream” na internet, onde todos os oradores foram chamados a participar. Da parte da tarde, seriam provados os grandes vinhos da década de 70, numa master class que reuniu memoráveis Vintage, Colheitas e Garrafeiras, entre os quais, os vinhos Ramos Pinto Vintage 1970, Dalva Golden White  1971,  Quevedo Colheita 1974 , Garrafeira Niepoort 1977 e Sandeman Vintage 1978.

A celebração prolongou-se noite dentro, nos enésimos jantares vínicos que povoaram a cidade e depois na rota de bares, restaurantes e caves que aderiu ao evento em versão “Port by Night”, numa iniciativa em rede que decorrerá até ao próximo domingo, dia 13.

Fátima Iken (texto) e Ricardo Garrido (fotos) | WINE – A Essência do Vinho