Provas verticais de várias colheitas

Um dos vinhos icónicos da região do Douro está a celebrar 25 anos. O Duas Quintas, elaborado pela Ramos Pinto nas quintas de Ervamoira e Bons Ares, Douro Superior, começou por ser produzido em 1990 e desde aí contribuiu decisivamente para a afirmação dos vinhos DOC da região.

Esta sexta-feira e sábado, em Vila Nova de Gaia e no Douro, respetivamente, múltiplos anos das versões branco e tinto do Duas Quintas estão reunidas em provas verticais para avaliação de mais de duas dezenas de elementos da imprensa especializada, maioritariamente jornalistas e críticos internacionais.

A revista WINE – A Essência do Vinho participou na prova vertical inaugural, com vinhos brancos, em Gaia, numa viagem pelo tempo que se iniciou em 1994 e culminou em 2014. Destaque muito especial para as edições 1994, 1997 e 2007 do clássico e as colheitas 2009 e 2011 do Reserva. O ADN é transversal: vinhos não exuberantes em termos aromáticos, de acidez vincada, muito frescos, que conseguem evoluir corretamente. Os brancos Duas Quintas iniciaram a aventurança em 1992. Os tintos surgiram em 1990.

Duas Quintas branco 2014: Muita acidez e mineralidade, num vinho vivaço e equilibrado. A mineralidade, frescura e um certo vegetal reforçam-se na boca.

Duas Quintas branco 2013: Está longe de ser exuberante em termos aromáticos. É bem mais mineral e profundo e promete evoluir bastante.

Duas Quintas branco 2012: A paleta aromática é algo mais rica, com a fruta a sobressair. Tem assertividade na boca e é precisamente aí que mantém o perfil mineral e fresco que caracteriza o Duas Quintas.

Duas Quintas branco 2011: Aromaticamente mais retraído. É igualmente mais magro e menos contundente na boca, sobrando-lhe laivos de mineralidade final.

Duas Quintas branco 2010: O tempo vai passando, a complexidade aumentando. E como é curioso provar vinhos brancos que sabem envelhecer… Nesta edição, um branco mais austero, com grande acidez e persistência final.

Duas Quintas branco 2009: Começa escondido por notas frutadas de alguma ameixa branca  a que se junta algum vegetal. O “background” é de nível. Tem prova sem arestas, estando num momento propício de consumo com prazer.

Duas Quintas branco 2007: A cor é bonita, a caminhar para a tonalidade dourada. Os aromas são inspiradores, da mineralidade à geleia branca. A boca tem profundidade e um toque de alguma doçura, sempre com acidez que dita um final bem agradável. É, sobretudo, um vinho guloso, muito guloso.

Duas Quintas branco 2006: Inicialmente renitente, após alguma agitação revela geleia e algum figo. Bem menos mineral, o figo e a tâmara realçam-se na boca. O final é mais curto.

Duas Quintas branco 2005: Mineralidade e alguns frutos secos no nariz. Tem acidez no ponto, de novo os frutos secos e uma frescura que embala o final.

Duas Quintas branco 2003: Dourado com nuances esverdeadas. Os aromas sugerem alguma polpa, algum vegetal, algum iodo. A boca tem caramelo e o final é certinho.

Duas Quintas branco 2002: O nariz está cheio de frutos secos e caramelizados. A boca comprova-o mas acresce-lhe uma acidez persistente, que surpreende no final.

Duas Quintas branco 2001: Aromas de compota e até algum licor. Na boca sobressai o adocicado da madeira com um final que, graças à acidez, conjuga elegância e uma certa doçura.

Duas Quintas branco 2000: É como que um perfume adocicado, um misto de frutas secas e até algum mel. Lembra na boca os rebuçados da Régua e tem uma acidez que lhe confere pitadas exóticas.

Duas Quintas branco 1999: Dourado brilhante, cheio de aromas de rebuçado, caramelo e fruta licorada. Mais magro na boca e com uma inesperada frescura, que proporciona um final retemperador.

Duas Quintas branco 1997: Exulta frescura aromática, está vivaz apesar da fruta já caramelizada. Na boca tem uma acidez espantosa que ajuda a um final muito agradável e lhe perspetiva mais algumas andanças. Estão a ver aquele jogador de futebol trintão, que apesar da idade ainda enche todo o meio-campo?...

Duas Quintas branco 1994: A cor é bom augúrio. Está muito limpo, mantendo nuances esverdeadas por entre o dourado dominante. Está um jovem, pela mineralidade e o vegetal que lhe sentimos, pela elevada acidez com nuances de frutos secos apetitosos, ameixa e figo. O final é memorável, longo, muito longo. Que vinho!

Duas Quinta Reserva branco 2014 (magnum): Está ainda em fase de integração. A madeira ainda sobressai no nariz e a boca apresenta fruta fresca. Um jovem, portanto.

Duas Quintas Reserva branco 2013 (magnum):  Um perfume citrino bem integrado com a mineralidade. Muito fresco, com elevada acidez e o tal citrino a conferir prazer suplementar no momento final, demorado.

Duas Quintas Reserva branco 2012 (magnum): É ainda muito reservado no nariz. Lá vai mostrar algum vegetal, mineralidade e um leve citrino. Detentor de uma acidez vincada, com fruta em fundo e um final assertivo.

Duas Quintas Reserva branco 2011 (magnum): Muito mineral. Agradavelmente mineral. Confirma as credenciais logo a seguir, proporcionando uma prova absolutamente irresistível. Termina cítrico e persistente e  promete continuar em forma por mais umas longas temporadas.

Duas Quintas Reserva branco 2010 (magnum): É um tímido, limitando-se a destapar algum mineral e madeira suave. Está numa fase de para-arranca, ora a prometer, ora a esconder. Um indeciso, mas com acidez que lhe permitirá evoluir.

Duas Quintas Reserva branco 2009 (magnum): Aromas minerais e de algum iodo. Agiganta-se mais um pouco a seguir, tendo um volume considerável e um final persistente, com acidez “au point”. Está num grande momento de forma, literalmente pronto para a maratona.

Duas Quintas Reserva branco 2008 (magnum): Vegetal, com  alguma barrica em fundo. Essa madeira mostra-se mais na boca, tal como a acidez e alguma polpa frutada. O final é longo, como apanágio da série.

Nesta prova houve ainda oportunidade de avaliar o Duas Quintas Ensaio Reserva 2002, um vinho bem curioso, de cor cobre e aromas caramelizados e de alperce, a lembrar no nariz que poderia ser um colheita tardia, algo que a boca prontamente desmente pela acidez e frescura marcantes.

JJS | WINE – A Essência do Vinho