Sessões de esclarecimento promovidas pelo IVDP e PORVID

A preservação da diversidade na vinha é essencial para garantir um património genético único – de que Portugal é detentor exemplar no mundo – e, obviamente, conseguir melhores vinhos. 

A pensar na importância do estudo e conservação desse verdadeiro tesouro nacional para aprofundar conhecimentos sobre a variabilidade e potencial de cada casta e seus clones, o IVDP (Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto) e a PORVID (Associação Portuguesa para a Diversidade da Vinha)  decidiram empreender uma série de sessões de provas e esclarecimento sobre monovarietais do Douro e respetivas famílias genéticas. A ideia é sempre conservar a diversidade genética intravarietal das castas autóctones, no sentido de manter a biodiversidade das castas portuguesas, com forte impacto na qualidade e imagem do setor do vinho. O pontapé de saída foi dado pela “Família Touriga”, numa sessão conduzida por Bento Amaral e António Graça, respetivamente representantes das duas entidades, onde se descortinou o Mourisco, a Tinta Barroca, Touriga Fêmea, Touriga Franca e, claro, a Touriga Nacional.

Tal como o homem, a videira pode cruzar-se numa infinitude de ligações, criando enésimas famílias cujo ADN, depois de identificado, pode ser desenhado para um melhor conhecimento do nosso património enológico e ambiental. Portugal possui uma especificidade muito própria e a origem de videira é absolutamente única no mundo, sendo, aliás, hoje um dos líderes mundiais na metodologia de conservação, seleção e multiplicação de videira. Isto porque tem sido desenvolvido um trabalho sem paralelo no aumento do conhecimento das castas portuguesas pelo PORVID. A conservação deste património resultou na identificação de 30.000 clones e 210 castas no nosso território, sendo o objetivo, num futuro próximo, atingir a identificação de 50.000 clones e 250 castas autóctones. São 115 as castas autorizadas hoje no Douro. Só para aquilatarmos esta pluralidade, por comparação, a Borgonha possui apenas dez, sendo que utiliza maioritariamente duas – o que exibe, per si, a imensa diversidade existente no território duriense.

Da mesma forma, no campo da microbiologia, existem 600 leveduras no Douro, sendo que a caracterização está em curso também, num trabalho que será decerto moroso e complexo. Portugal tem autorizada a produção de vinhos a partir de 343 castas, existindo apenas um país na Europa com mais castas, que é a Itália (com 370). O nosso país lidera no que diz respeito à diversidade, tanto pela maneira como a vinha se distribui geograficamente, como pela diferença climática e de solos, sendo a origem de vinha absolutamente única e a região do Douro é a que possui mais variedade, até pela diversidade de solos e climas.

A prova constitui-se por cinco vinhos completamente diferentes nesta primeira sessão dedicada à Família Touriga, que ocorreu no IVDP, mas com a mesma origem genética, adaptados a diferentes tipos e momentos de consumo, sempre com bom potencial e grande qualidade. Esta foi a primeira de uma série de quatro sessões sobre monovarietais. Segue-se uma outra,  marcada para o próximo dia 20 de julho, sobre “Castas estrangeiras do Douro” e outras duas a ocorrer só depois do verão  e, por isso, sem tema ainda decidido.

Manuel Novaes Cabral, presidente do IVDP, salientou que, apesar do Douro não ser propriamente uma  referência de monocastas, o instituto  em parceria com a PORVID, achou importante dar a conhecer melhor os monovarietais presentes no território. “A ideia será o conhecimento aprofundado das monocastas que ajudará muito a melhorar os vinhos do Douro e de Porto, uma das razões porque desenvolvemos este projeto”, defendeu. O IVDP e a PORVID  pretendem, desta forma, congregar sinergias em  conjunto no estudo das diferentes castas durienses, sua preservação e divulgação. 

Analisar o ADN de 250 castas

A missão da PORVID é, conforme realçou António Graça, “conservar esse património ancestral e guardá-lo com como valorização para as gerações futuras”. Decorrente do protocolo com o Estado português para a criação do Centro Experimental da Herdade de Pegões (Montijo), um terreno com 300 hectares surgiu assim o primeiro centro de conservação da diversidade da videira do mundo. Conserva uma amostra representativa da diversidade de cada casta, das diferenças e particularidades de cada uma e da diversidade dos seus clones, que se reflete na pluralidade de cor, acidez e diferentes aromas diferentes no vinho. Ou seja, com estes conhecimentos, podem fazer-se fazer seleções à medida das necessidades agronómicas, ambientais e enológicas.

A análise do ADN destas 250 castas tem provocado surpresas, como a descoberta, por exemplo, de que alguns clones  - cinco ou seis -  afinal não são clones mas castas diferentes. Sendo que há grupos de castas que se agrupam geneticamente, descobriram-se ainda as várias famílias agora tipificadas. Existem, por isso, filhos dos mesmos pais que não poderiam ser mais diferentes. Tal como com a humanidade.

A PORVID acabou por conferir identidade jurídica a um trabalho de quase 30 anos de pura carolice que resultou num progresso meritório para conhecimento das nossas castas. Um dos exemplos dados por António graça foi o facto de “no final dos anos 70, a Touriga Nacional ter sido literalmente arrancada pelos viticultores porque não obtinha resultados rentáveis… e hoje sabemos o que representa o seu valor e seu impacto na perceção internacional dos vinhos portugueses”. O mesmo trabalho que está a ser feito com a Touriga Nacional está, aliás, a ser aplicado a mais de 60 castas a nível nacional.

Da teoria passamos à prática com a prova de cinco monovarietais da Família Touriga. O primeiro vinho seria o Mourisco 2015 Quinta dos Lagares (também conhecida por Marufo), o único vinho desta monovarietal a ser feito no Douro. Um vinho rosado, de cor salmão pálida, com muito pouca cor, típica da casta (também conhecida por Marufo), com aromas florais, a evocar morangos e framboesas, com um perfil elegante, pouca estrutura, teor de álcool elevado. Refira-se que esta casta era muito querida no Douro, já que devido ao alto teor de açúcar possibilitava economizar-se na aguardente no que concerne à produção de Porto. Seguiu-se o Touriga Fêmea 2014 Quinta da Revolta, também o único exemplar a ser feito no Douro, sendo os ascendentes pai Touriga e mãe Mourisco. Boa concentração de cor,nariz apelativo,  fruta vermelha, cereja intenso, notas especiadas, suave, macio e redondo, com boa estrutura, boa acidez. Mais um exemplo de diversidade, sendo que o nome está correto já que é mesmo fêmea. A diferença fica-se pelas notas florais que não são iguais às da progenitora,  precisando de ser polenizada por outra planta para conseguir a fertilização. Lugar agora para o Tinta Barroca 2014 Muxagat. Irmã da Touriga Fêmea, possui mais intensidade de cor, resultando do cruzamento entre a Touriga Nacional e o Marufo. Vinho suave, fruta redonda, ainda assinado por Mateus Nicolau de Almeida. Fruta vermelha e presença de taninos a contribuir para alguma vivacidade e expressividade, volume de boca. “Neste tipo de casta que não tem tanta estrutura foi interessante não usar madeira” – sublinhou Bento Amaral. 

Tempo, de seguida, para dissecar outro elemento da família. Neste caso, a Touriga Franca 2013 Quinta do Passadouro. Das três descendentes, a Touriga Franca é a mais conseguida e a que mais puxa à mãe. É, claro, filha da Touriga Nacional e com paternidade do Marufo ou Mourisco. A habitual bergamota e notas citrinas a marcar o este vinho típicas da casta. Sendo que não tem a complexidade da Touriga Nacional, integra famílias de aromas semelhantes, mas mais florais. Mais feminina, a Touriga Franca é, igualmente, mais perfumada, floral e cítrica, e neste caso o casamento com a madeira está bem integrado, revelando a fruta vermelha, a framboesa, mas também amora preta, num vinho com mais estrutura que corpo. Finalmente, chegava a vez de provar o Touriga Nacional 2013 Quinta do Noval, a exibir a casta no seu esplendor e a sua complexidade aromática, entre notas de violeta, earl grey, casca de laranja e fruta preta.

A especificidade da nossa Touriga

A Touriga Nacional tem centenas de clones e a tese da domesticação de videira selvagem na Península Ibérica como a sua origem tem razão de ser, segundo António Graça. Isto porque já se comprovou que o ADN das castas existentes cá não tinha relação com as castas provindas do Oriente. Portugal  possui, assim, uma especificidade própria, uma origem da vinha absolutamente única e um ADN mais complexo e diferencial. António Graça referiu, a propósito, que Portugal possui a maior população de videira selvagem da Europa Ocidental. Acrescendo o facto do Douro ser a região com mais diversidade do território porque é a que possui mais pluralidade de solos e climas, esta prova exibiu como o nosso património vínico é rico e como a investigação pode levar-nos mais longe através do nosso potencial único no mundo.  Não será por acaso que a França ao homologar sete castas estrangeiras, uma delas seja exatamente a nossa Touriga Nacional.

A prova de tudo isso foram os cinco vinhos  provados, completamente diferentes, mas com a mesma origem genética e potencial único, adaptados a diversos tipos e momentos de consumo.

Fátima Iken | WINE – A Essência do Vinho