Por Nuno Guedes Vaz Pires, Diretor Executivo da revista WINE

Há já muito tempo que o futuro do escoamento da produção de vinho em Portugal se joga nos mercados internacionais. O país lamenta-se invariavelmente da escassez de marcas com real impacto à escala global, salvaguardando o Vinho do Porto, mas tem conseguido perceber que deverá posicionar-se no exterior promovendo fatores de diferenciação. Portugal consegue ser diferente por produzir vinhos a partir de castas autóctones, únicas no mundo, que estão na origem de produtos fora do mainstream e que possuem uma relação qualidade/preço que é genericamente sublinhada nos mercados recetores de vinho português. Há ainda a célebre questão da imagem, da ainda pouca afirmação de Portugal nas prateleiras de supermercados e lojas da especialidade internacionais, mas esse é um trabalho de sapa, que terá obrigatoriamente de passar por ações prévias, bem delineadas e muito focadas na transmissão do que é Portugal, do que são os vinhos portugueses.

A ViniPortugal tem nesta matéria assumido um papel relevante, ao procurar desenvolver ações promocionais dos vinhos portugueses em mercados tidos como estratégicos, seja através da organização de uma presença concertada nas grandes feiras internacionais, no convite assíduo a jornalistas e líderes de opinião para participarem em provas de vinhos portugueses e se deslocarem ao país para conhecer in loco a realidade do que é feito em Portugal. As publicações internacionais de referência também já olham, já provam e já pontuam com boas notas vinhos elaborados em Portugal e convém não esquecer que vários vinhos portugueses são alvo de rasgados elogios na Imprensa estrangeira. Mas, até chegar às prateleiras dos tais supermercados e lojas e, assim, ao consumidor final, continua a existir um caminho a percorrer. Não estamos a falar de uma corrida de 100 metros, esta é antes uma maratona… um trabalho de formiguinha.

O Brasil está identificado como um dos principais mercados de exportação dos vinhos portugueses. Portugal exportou mais de oito milhões de litros para o Brasil em 2011, o que faz daquele país o quarto principal destino das exportações de vinhos português, em valor, num ranking liderado por Angola, seguindo-se o Reino Unido e a França. Cerca de 6,6% do total de valor de vinho português exportado teve como destino o Brasil e Portugal surge igualmente na quarta posição entre os vinhos importados pelos brasileiros, atrás de Chile, Argentina e Itália. Se atendermos ao facto de o consumo per capita de vinho no Brasil ser de apenas dois litros, contra os quase 48 litros em Portugal, facilmente concluímos que existe uma margem de crescimento enorme no consumo de vinho, tanto mais que a economia brasileira continua a registar índices de crescimento e de consumo generalizado muito substantivos.

Uma das mais recentes iniciativas que a ViniPortugal assumiu no Brasil está neste momento a ser realizada e passa pela concretização de 24 sessões de formação sobre os vinhos portugueses para profissionais das áreas on trade (restaurantes, bares, hotéis) e off trade (supermercados e lojas). Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo, Ribeirão Preto, Campinas, Curitiba, Florianópolis, Londrina, Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Fortaleza são as 12 cidades que estão contempladas neste plano, que inclui ainda jantares de harmonização com vinhos portugueses, em conceituados restaurantes de Ribeirão Preto, Curitiba, Florianópolis, Brasília, Belo Horizonte e Salvador, dirigidos a jornalistas e líderes de opinião e procurando demonstrar outro fator de diferenciação dos vinhos de Portugal – a capacidade de adaptação a diferentes tipos de gastronomia.

A Essência do Vinho Brasil foi a empresa selecionada pela ViniPortugal para produzir estas ações. Correndo o risco de ser juiz em causa própria parece-me óbvio que esta iniciativa está perfeitamente enquadrada no tipo de divulgação que os vinhos portugueses devem procurar fazer para aumentarem a notoriedade e alcançarem uma maior penetração em mercados tão importantes como o Brasil. Não se esperem muitos resultados imediatos, mas certamente serão criadas novas redes de contacto e aumentados os índices de recetividade aos vinhos de Portugal. É um trabalho de formiguinha, que demonstra que não estamos a perder o comboio, que prova que vamos a jogo com os argumentos que certamente farão valer Portugal como um país com futuro também no vinho. E eu sou dos que acreditam que com boas ideias, persistência e muito trabalho chegamos lá!


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