A família Symington quer reforçar a sua aposta na produção de vinhos DOC Douro. Por isso acaba de lançar dois novos tintos produzidos na imensa Quinta do Ataíde, no Vale da Vilariça, no extremo nordeste do Douro Superior, ao mesmo tempo que anunciou a compra de uma quinta contígua a esta: a Quinta do Carrascal, com uma área de 125 hectares.

Estas novidades foram o ponto alto de uma visita organizada para a imprensa da especialidade, onde ficou claro que as condições “sui generis” do Vale da Vilariça – que nada têm a ver com as condições agrestes da vinha de montanha típica da região do Douro – vão permitir à família Symington um novo enfoque estratégico.

Com efeito, passeia-se pelo meio das vinhas da Quinta do Ataíde e parece que estamos no Alentejo, como bem sublinhou Paul Symington. O que vai seguramente proporcionar, no futuro, algum tipo de mecanização da vindima, o que por si só trará ganhos significativos de produtividade – e é consabido como esse é um problema fulcral na produção de vinhos DOC no Douro, onde o custo por quilo de uva chega a suplantar 7 ou 8 vezes o custo congénere num país como Chile, por exemplo.

A comprová-lo, as vinhas da Quinta do Ataíde têm o aspeto dominante no “Novo Mundo” e no nosso Alentejo, em que a zona dos cachos e o coberto vegetal se encontram a uma maior distância do solo. Deste modo aumenta-se a exposição solar das uvas – e, por essa via, a concentração na cor, aroma e sabor dos vinhos – mas também se consegue um mais rápido arrefecimento noturno da vinha nos meses quentes do Verão. E sabe-se como o calor é inclemente nestas paragens do Douro Superior.

Quanto aos dois vinhos de produção biológica da Quinta do Ataíde – que passou a integrar o vasto portfólio de quintas da Symington aquando da aquisição da Cockburn’s em 2006 – cumprem objetivos diferentes. Embora sejam ambos da colheita de 2014, o “blend” Quinta do Ataíde situa-se no patamar dos 13 ou 14 euros enquanto o Quinta do Ataíde Vinha do Arco (varietal Touriga Nacional) “salta” para o universo dos 24 euros.

O primeiro vinho integra cinco castas (Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Barroca, Tinta Roriz e Tinto Cão) e estagiou 8 meses em barricas usadas de 400 litros. Trata-se de um vinho fresco e equilibrado, muito suave a apetecível, com predomínio do fruto silvestre, a madeira dissimulada, e um final de boca que prolonga a sensação de frescura.

Já o Quinta do Ataíde Vinha do Arco, que fermentou parcialmente em barrica e estagiou em barricas novas e usadas durante 10 meses, é mais volumoso, tem mais estrutura, mas revela um perfil vegetal que envolve a fruta imensa numa atmosfera de frescura aromática. Um belo vinho de que se fizeram 12 mil garrafas e que merece esperar mais algum tempo para ser bebido. Talvez então possamos confirmar aquilo que já agora se antevê: um vinho que nos faz lembrar alguns Syrah franceses da Côte du Rhône.

Luís Costa | WINE – A Essência do Vinho