À mesa de José Avillez e Pedro Lemos

As colheitas 2014 dos vinhos Pombal do Vesúvio e Quinta do Vesúvio foram esta quinta e sexta-feira apresentados à Imprensa, num registo descontraído e intimista que aconteceu no Bairro do Avillez, mais recente espaço protagonizado pelo chefe José Avillez (duas estrelas Michelin no Belcanto), no Chiado, Lisboa, e no restaurante Pedro Lemos (uma estrela Michelin), na Foz Velha, Porto, respetivamente. A WINE – A Essência do Vinho acompanhou Mariana Ferreira de Brito, manager para os vinhos DOC Douro, e José Álvares Ribeiro, diretor-executivo da Symington Family Estates, durante o almoço no Porto.

Com apenas 16 anos de histórico nos vinhos DOC – “Joe” Álvares Ribeiro recordou, com graça, que “o projeto de vinhos DOC Douro está ainda na primeira infância” –, a Symington encontra-se atualmente a produzir cerca de dois milhões de garrafas por ano de vinhos tranquilos. Pombal e Quinta do Vesúvio são dois exemplos de gama média e média-alta, nesta colheita 2014 obtidos após um ano chuvoso, onde a precisão da viticultura e a atenção aos detalhes marcou a diferença. Entre portas, esse ano viria a ser recordado na Symington  como “o ano da raposa”, dado que uma matreira raposa andou a vaguear nas imediações da adega do Vesúvio, tendo até conseguido a proeza de “confiscar” as botas de um funcionário da casa…

O Pombal do Vesúvio 2014 tem cor rubi, aromas marcadamente florais, onde sobressaem as violetas tão expressivas da Touriga Nacional do Douro. Aliás, a casta é dominante (60%) nesta colheita, seguindo-se-lhe a Touriga Franca. Ainda no nariz, fruta vermelha e ligeira tosta de barrica. Taninos assertivos numa prova de grande frescura, com final longo e agradável. No patamar de preço onde se situa, na ordem dos 14€, constitui das melhores relações qualidade/preço do Douro atual.

Harmonizou com dois pratos bem criativos de Pedro Lemos. Primeiro,  lombinho de porco, gambas frescas do Algarve, ameijoas e molho das gambas e do porco. O molho é sublime, daqueles que só os bons chefes de cozinha conseguem alcançar, e é o segredo da harmonia entre dois produtos tão distintos, gambas e porco. A verdade é que combinam. Novamente brincando no mesmo prato com mar e terra seguiu-se uma surpreendente lula de Angeiras recheada com fumeiro, com creme de carabineiros assados. Outra coabitação feliz entre mar e terra.

O Quinta do Vesúvio 2014 é um lote de Touriga Nacional, Touriga Franca e Tinta Amarela. Engarrafado em março está ainda bem jovem, mas é claramente um vinho cheio de pergaminhos. No nariz, a barrica ainda surge à frente da componente frutada. A estrutura é assinalável e os taninos geram uma pose altiva mas sempre em elegância. A frescura é grande, o final bem longo, sinais que indicam capacidade de envelhecimento. O PVP é de 47,50€.

O vinho harmonizou com um prato que reuniu partes menos óbvias de vaca com uma fatia de carne maturada, aipo, ervas aromáticas e cebolas mini. É uma criação que nos remete para a esfera da cozinha tradicional – “comida de tacho”, como Pedro Lemos tanto gosta de lembrar. Valeu pelas diferentes dimensões das texturas e pelo sabor genuíno de cada pedaço de carne. 

Na reta final, após um gelado de morango para limpar o palato, uma sobremesa a puxar por um Vinho do Porto: chocolate negro, brandy à moda da casa e gelado de queijo azul. Combinou com um Vesúvio Vintage 1995, em excelente forma. Em jeito de despedida, um vinho que é especial para alguns dos que estavam sentados à mesa: Dow’s Vintage 1963. Precisaríamos de muito “scroll” neste ecrã para o descrever como mereceria. Por isso fiquemo-nos pela cor granada com laivos acobreados, pelos aromas riquíssimos a frutos secos e fruta caramelizada, pelos couros e pela geleia, pela estrutura fantástica, pela frescura imensa, pelo final que perdura, perdura, perdura… Ainda o sentíamos quando as palavras deste texto ficaram escritas.

JJS | WINE – A Essência do Vinho