“EUA compensaram as perdas de Angola”, garante Jorge Monteiro

Na mesma altura em que o setor do vinho português avalia os grandes mercados internacionais e analisa as novas tendências no consumo, na perspetiva do plano global de Marketing e Promoção para 2017, a revista WINE - A Essência do Vinho aproveitou a oportunidade para entrevistar Jorge Monteiro, presidente da ViniPortugal, a organização interprofissional do setor vitivinícola.

Que novos mercados estão a ser procurados para os vinhos portugueses? A Rússia é um desses mercados? 

A Rússia é um mercado para o qual olhamos com alguma prudência. Por duas razões: porque sabemos que é um mercado com regras nem sempre bem conhecidas, nem sempre com a transparência a que estamos habituados. É um mercado que funciona com base na emissão anual de licenças, e portanto as licenças... um ano há e outro ano já não há. Segunda questão: é um mercado bastante aberto a vinhos de entrada de gama e para o qual ainda não estamos em condições de entrar com vinhos das gamas média e média-alta.

Antes da Rússia, nós na Viniportugal entendemos que mercados como a Coreia do Sul, Taiwan ou até a Suíça, que tem já uma expressão grande para os vinhos portugueses, são mercados que merecem ser trabalhados de forma sistemática. No entanto, e confirmando esse crescente interesse, temos previsto no plano para 2017 uma ação na Rússia. Mas num formato que não costuma ser o primeiro formato quando entramos num país.

E que formato é esse?

Normalmente, a primeira coisa que fazemos é uma prova. Neste caso não. A nossa opção foi avançar para uma seleção criteriosa de potenciais importadores, aqueles que já estão habilitados no fundo para a importação de vinhos, e trazê-los cá [a Portugal] para que despertemos a sua atenção para os melhores vinhos que temos e mostrarmos toda a riqueza de regiões, de castas, de solos e de climas. Ou seja, tentar aproveitar aqueles que já estão predispostos para a importação mas que talvez não conheçam, na nossa perspetiva, aqueles que são os melhores vinhos e a riqueza e diversidade portuguesas. Vamos estar atentos à Rússia. E a outros mercados emergentes. Até porque, há 15 anos, podíamos dizer que Portugal se tinha especializado na União Europeia e nos países de expressão portuguesa. Mas os acontecimentos recentes de Angola levam-nos a ganhar consciência do risco da grande concentração [das nossas exportações de vinho] num só mercado.

Em Angola havia qualquer coisa que não era normal...

Em Angola havia qualquer coisa que não era normal. Nós estávamos com uma quota de mercado enorme, muita próxima dos 80%. Toda a gama dos vinhos portugueses estava presente. Em Angola há uma enorme fidelidade, uma enorme preferência pelos vinhos portugueses.  Nós estávamos a exportar 90 milhões para aquele mercado. Era qualquer coisa de desequilibrado. Mais depressa do que estávamos à espera, e de uma forma mais profunda, passámos de um quadro de 90 milhões para um horizonte que deverá fechar este ano abaixo dos 20 milhões. É o risco da grande dependência de um mercado que visto coletivamente já impressiona, mas numa análise mais profunda - quando verificamos que existem algumas empresas que estão excessivamente expostas àquele mercado - obriga-nos a ter uma outra consciência e a tentar lutar por uma maior dispersão de destinos.

Felizmente, outros mercados compensaram as perdas de Angola, não é verdade?

Sim, o que é notável. Honestamente, há aqui um trabalho que já vem de trás. Com a queda do mercado de Angola, os EUA transformaram-se no maior destino de vinhos tranquilos portugueses. Todos sabemos que os EUA são um mercado-montra. Por mérito dos produtores e da qualidade dos vinhos portugueses, já tínhamos caído nas boas graças das grandes revistas americanas de referência e já começámos a ter o "trade" dos profissionais a apreciarem os nossos vinhos. Ora, isso levou a que a onda de crescimento tenha acelerado lentamente. Hoje, uma boa parte daquilo que não se coloca em Angola conseguimos colocar nos EUA, que agora é o nosso maior destino. O Canadá é também um destino em crescimento - e estamos a falar de um crescimento sustentado de quatro ou cinco anos. Mas estamos a falar também da Polónia, onde já se começa a assistir a um deslocar da opção de compra para vinhos de maior valor, mas também da Suíça. E, no outro extremo do mundo, a China, fruto de um trabalho que vem sendo desenvolvido desde há alguns anos. E mais recentemente o Japão. Ao mesmo tempo que estamos a continuara  investir em mercados que já têm alguma dimensão, estamos a trabalhar outros mercados numa lógica de médio prazo, mercados ainda pouco significativos mas que têm potencial de crescimento. Quando estamos a falar dos EUA estamos a falar de 75 milhões de exportações no final do ano. Quando estamos a falar do Japão, estamos a falar de 7 milhões. Mas este mercado tem potencial de crescimento. E quando falamos da Coreia ou de Taiwan, estamos a falar em menos de 1 milhão de euros. Mas são mercados muito dinâmicos, com potencial de crescimento muito grande. Nestes mercados, como temos uma presença muito pequena, crescer muito não significa que consigamos colocar aquilo que nos está a faltar em Angola.

Outro destino preferencial dos vinhos portugueses, o Brasil, também conheceu uma crise abrupta...

Sim, tivemos receio que houvesse uma coincidência de crises económicas em Angola e no Brasil. Até admitíamos que Angola fosse circunstancial e que o Brasil fosse mais duradouro, mas não foi isso que aconteceu. O Brasil passou muito rapidamente pela crise. A crise marcou mas, neste momento, o Brasil está a crescer outra vez nas importações. O que sucedeu é que o consumo deslocou-se para produtos de gama mais acessível. Ou seja, passou a haver uma opção do consumidor nesse sentido. Mas o que é certo é que, em termos de exportações, o Brasil está com um comportamento muito agradável, com o consumidor a deslocar-se para outro patamar, mas ainda sim com as nossas exportações de vinho a crescerem.

Vem aí um novo ano. Que orientações estratégicas para 2017?

A grande orientação estratégica é a mesma. Nós valorizamos muito a estabilidade. Entendemos que criar uma imagem exige tempo, coerência e consistência. E persistência nas ações. Neste quadro, há pequenos movimentos. Estamos a retirar algum investimento no Brasil e em Angola e a colocar mais investimento no Japão e um pouco mais no Canadá. Aproveitando a conjuntura, estamos a colocar mais ovos nos cestos que, neste momento, nos parecem ter melhores condições para obter os resultados pretendidos. E mantemos a aposta na China e nos EUA.

E quanto aos mercados mais tradicionais como o Reino Unido e  Alemanha?

Começamos a pensar que mercados como o Reino Unido ou a Alemanha talvez já não justifiquem uma participação ativa da marca "Wines of Portugal". Provavelmente, está no momento certo de as denominações de origem reforçarem o seu investimento nesses destinos, como já acontece com os Vinhos Verdes, com o Douro e com o Vinho do Porto. Em 2017 vamos retirar algumas fatias de investimento do Reino Unido e da Alemanha, e esse dinheiro vai ser canalizado para a Vinexpo, uma montra mundial que está a recuperar a sua imagem.

E não teremos de adotar uma postura diferente na abordagem aos mercados  internacionais?

Hoje lidamos com quase 400 empresas que estão na exportação. É muito importante que todas elas, quando entram na mesa das negociações, ponham em cima da mesa a diversidade climática, a diversidade de solos, a diversidade de castas. Temos de convencer os mercados de que os nossos vinhos são tão bons como os outros, mas são diferentes. Porque só assim é que vamos conseguir melhorar a perceção de valor dos vinhos portugueses. É muito importante que retiremos da mesa de negociações o desconto e o preço baixo. E também é muito importante que quem anda nos mercados internacionais tenha a noção de que o concorrente do Alentejo não é a Península de Setúbal, o concorrente do Dão não é a Bairrada, o concorrente do Douro não é o Alentejo. Os concorrentes são a Nova Zelândia, a Austrália, o Chile, a Argentina, a Espanha. Temos de adotar outra postura no mercado internacional, que passa por vender com convicção a diferença dos vinhos portugueses, que são tão bons como os outros, mas que proporcionam experiências diferentes.

Um sublinhado final?

Só quero sublinhar isto: um setor que em dois anos perde 70 milhões de euros em exportações e consegue colocar isso noutros mercados é um setor com uma vitalidade enorme, com uma resiliência enorme. É uma manifestação de força que nos faz acreditar que o futuro vai ser melhor do que o presente.

Luís Costa | WINE – A Essência do Vinho