Quem, como nós, anda pelo mundo do vinho há vários anos reconhece que existe um gosto quase inconsciente pelos chamados produtores de garagem, que tantas vezes rompem com o convencional e obrigam-nos a repensar conceitos que desde sempre tivemos como adquiridos. É muito graças a eles que se vão (re)descobrindo novas formas de fazer e de pensar o vinho e, não raras vezes, que se criam as chamadas tendências. Com o tempo, os melhores tornam-se verdadeiras referências e todos nós, que adoramos vinho e gostamos de ser testados com novas abordagens, acabamos por lhes dar carinho e palco. Até aqui, tudo bem. Mas, como atual diretor da Revista de Vinhos (e noutros projetos editoriais recentes) continuarei igualmente a dar destaque a todos os casos de sucesso com dimensão global.

Recentemente participei na apresentação dos Porto Vintage 2015 da Symington Family Estates. Os vinhos estão fantásticos e são um investimento seguríssimo, apesar de não ser um ano clássico. Na última década, a Symington adquiriu 369 hectares de vinhas, detento atualmente 1.065 hectares na Região Demarcada do Douro e uns recentes 43 hectares no Alto Alentejo. De toda esta área, 224 hectares pertencem a membros da família, que escrupulosamente cumprem o acordo interno de não produzir vinho próprio, entregando as uvas dessas propriedades ao projeto de família. “Tem sido saudável, inteligente”, acentuava Paul Symington, quem lidera os destinos da Symington Family Estates, durante essa apresentação. A verdade é que a família Symington é das empresas europeias que mais área de vinha própria detém. E à dimensão consegue acrescentar qualidade e reconhecimento, dentro e fora do país.

Não quero saber se estamos a falar de uma família escocesa radicada em Portugal, até porque não tenho qualquer complexo quanto a isso e, reconheçamos, a história do Vinho do Porto muito deve à intervenção britânica. O que realmente me interessa e quero louvar é o trabalho e o empenho com que fazem questão de investir, de ir mais longe, de inovar, de preservar a qualidade. Portugal só tem a beneficiar com isso e, felizmente, outros casos, dentro e fora do universo do Vinho do Porto, poderia aqui ter mencionado. Grandes e pequenos, desde que aportem qualidade e alarguem horizontes, merecem realce. Sem preconceitos intelectuais.

Permitam-me, por fim, uma derradeira nota acerca de novos colaboradores do Painel de Provas da Revista de Vinhos, que já a partir da próxima edição começam a trabalhar connosco. Refiro-me aos sommeliers Guilherme Corrêa (considerado, em 2006 e 2009, o melhor sommelier brasileiro e que se prepara para viver em Portugal), e a três novos talentos da sommelerie portuguesa, jovens mas já premiados: António Lopes, João Chambel e Rodolfo Tristão. 

Nuno Guedes Vaz Pires | Revista de Vinhos