Aquilo que para muitos era impensável, aconteceu. De acordo com dados recentemente divulgados, Portugal superou a Argentina no primeiro trimestre deste ano, figurando no segundo lugar no ranking dos vinhos importados no Brasil, sendo apenas ultrapassado pelo Chile. A análise de janeiro a maio de 2017 mostra Portugal de regresso à terceira posição, mas ainda assim com um comportamento que impressiona: uma variação positiva de 81,6% em volume e de 57,4% em valor face a igual período de 2016.

Importa lembrar que o Brasil continua a ser um país cervejeiro (acrescendo a isso o fenómeno cada vez mais popular das cervejas artesanais brasileiras), que a carga fiscal sobre vinhos importados extra Mercosul cresceu brutalmente nos últimos dois anos, que as convulsões políticas e a retração económica naquele país se acentuaram durante este par de anos. E, mesmo assim, Portugal cresceu de forma fantástica.

O nono principal destino das exportações de vinhos portugueses continua a ser um território de oportunidades, desde que haja um trabalho de médio e longo prazo, não apenas concentrado em São Paulo e Rio de Janeiro mas abrangendo muitas outras regiões (Nordeste e Sul do país, incluídas) e cidades daquele imenso país, que mais parece um continente.

Várias instituições portuguesas – como a ViniPortugal, o Instituto dos Vinhos do Douro e Porto, a Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes, a Comissão Vitivinícola Regional do Tejo, por exemplo – têm realizado um trabalho notável de formação (junto de profissionais da hotelaria e restauração) e de promoção (junto de jornalistas, formadores de opinião e consumidores). Os resultados estão à vista e, para lá dos laços afetivos e históricos entre dois povos irmãos, os brasileiros encaram os vinhos portugueses com uma efetiva perceção de qualidade.

Estão igualmente de parabéns as empresas e os produtores, de maior e de menor dimensão, que nunca desistiram do mercado, mesmo sendo penalizador para os produtos europeus, o que só torna mais admirável este comportamento de Portugal. Uma palavra especial de reconhecimento para os portugueses que para ali foram trabalhar e viver nos últimos anos em prol dos vinhos portugueses e que rapidamente se tornaram verdadeiros embaixadores. Não menos importante, um sublinhado ao trabalho das importadoras que têm sabido equilibrar os vinhos chilenos, argentinos, portugueses e do resto do mundo nos respetivos portefólios.

Para mim, que estive na génese da primeira feira profissional de vinhos do mundo no Brasil, a “Expovinis Brasil”, em 2002, fica um sentimento de conforto e de orgulho pelo facto de a Essência do Vinho estar intimamente ligada, enquanto produtora de centenas de ações, a uma boa parte das iniciativas de formação e de promoção dos vinhos portugueses ali realizadas ao longo destes anos. O trabalho de formiguinha está à vista de todos. E se estamos assim em tempo de crise, dá para imaginar como será nos momentos de bonança? Como se diz pelo Brasil, simplesmente “sensacional!” 

Nuno Guedes Vaz Pires | Revista de Vinhos