Por Nuno Guedes Vaz Pires, diretor executivo da revista WINE-A Essência do Vinho

Dedico este espaço para homenagear dois nomes maiores do vinho português das últimas décadas. E se é verdade que por vezes lamentamos alguma falta de massa crítica ou arrojo extras no setor, devemos simultaneamente reconhecer que houve uma fantástica evolução nessa matéria, sobretudo nos últimos 20 anos. Após atingirmos uma qualidade média elevada nos nossos vinhos, felizmente percebeu-se que apenas juntos conseguiríamos ir mais além, por mercados internacionais, sem medo de nos impormos pela diferenciação, vincando-a, aliás, como fator positivamente distintivo. Por isso, também por isso, o vinho é hoje o mais fervilhante setor da agricultura portuguesa e um dos que mais contribui para as exportações do país.

Luis Pato foi dos primeiros a percebê-lo. O ex-professor de química que assumiu um património de família e uma região em queda livre, fez as malas e tem percorrido mundo ao longo de 30 anos de vindimas. Eterno insatisfeito, provocatório, incompreendido por uns e saudado por outros, tem trilhado caminho próprio e quem quiser… que siga as suas pisadas. Goste-se ou não do estilo, é um dos mais conhecidos e respeitados nomes do vinho português no mundo, um dos mais criativos produtores e enólogos do país, um dos mais irreverentes génios do vinho nacional. Recentemente, Luis Pato celebrou os 10 anos da nova adega na Bairrada, reunindo num almoço personalidades de diferentes quadrantes, maioritariamente ligadas ao vinho. Fui um dos privilegiados que ali esteve, comprovando, uma vez mais, a inquietude de quem se recusa conformar, a razão de quem insiste que estagnar é morrer.

Outro nome, outra referência. Os vinhos tranquilos do Douro têm em Domingos Alves de Sousa um protagonista de palco maior. No final dos anos 80 trocou a engenharia civil pelas vinhas que herdara da família e de então para cá tem insistido na empreitada de realizar grandes vinhos, com muito, imenso e contínuo trabalho. Alves de Sousa tem um espírito de sacrifício que raramente encontramos em quem, como ele, já granjeou encómios vários, mas talvez resida aí boa parte do segredo para os resultados que tem obtido – e já lá vão 20 anos sobre o lançamento do primeiro vinho, o Quinta da Gaivosa 1992. Tal como Luis Pato, Domingos Alves de Sousa conseguiu transmitir os genes do vinho a uma nova geração, igualmente apaixonada por vinhas, adegas, por dar a conhecer a Portugal e ao mundo o que faz nos seus palmos de terra.

Aproveito ainda os vinhos de Domingos Alves de Sousa para um sublinhado que contraria o infanticídio que tantas vezes cometemos com a abertura precoce de garrafas, seja por ânsia de os conhecer ou simples cedência face à pressão do mercado, a montante refletida nos produtores. Provar o Mouchão Colheitas Antigas 2002 é uma experiência que recomendo, dado estarmos diante um vinho que pede meças a outros grandes do mundo. A garrafa, com PVP de 46€, é uma pechincha e, nestes tempos de austeridade por Portugal, certamente de aproveitar. Porque não iniciar 2013 com ele à mesa?

Boas festas!


WINE-A Essência do Vinho