Os consumidores de Vinho do Porto estarão por estes dias num estado de contentamento compreensível à luz do entendimento vínico. A continuar a este ritmo afigura-se como provável que mais de metade das casas de Vinho do Porto acabe por declarar Vintage 2011, algo que, a confirmar-se, traduziria esse mesmo ano num clássico da categoria suprema de Porto. Se atendermos ao facto de, regra geral, apenas em cada década serem declaradas três a quatro colheitas Vintage, facilmente percebemos o sorriso nos rostos desses consumidores. Mas mesmo que 2011 não seja um ano clássico, essa expressão não esvanecerá tanto assim, dado que as principais casas produtoras já declararam e apresentaram Vintage nas últimas semanas, estando a circular no mercado os primeiros exemplares.

Devo confessar que apesar dos vários anos que levo de vinho em Portugal continuo a comover-me com a emoção com que cada produtor, cada enólogo, cada colaborador que de algum modo contribui para o nascer de um Vinho do Porto Vintage expressam na hora de apresentar um recém Porto Vintage. Percebe-se o brilho no olhar, perscruta-se o brio com que dizem tratar-se de um novo Vintage. Lembro-me, a esse propósito, dos tempos em que trabalhei numa casa historicamente ligada ao Vinho do Porto, a Sandeman, e da atmosfera generalizada de satisfação e orgulho que por lá se sentia quando um Vintage era declarado.

Os Porto Vintage 2011 nascem na sequência de um ano que reuniu as condições climatéricas tidas como perfeitas na altura da vindima. O ano foi seco, verão incluído, mas com temperaturas relativamente amenas e sem grandes ondas de calor. Alguma precipitação em agosto e no início de setembro, seguida novamente por tempo seco até finais de outubro, revelou-se decisiva para uma colheita sem sobressaltos, permitindo estabilidade das videiras e um final de maturação tranquilo. Dando razão à máxima de os Vintage serem “obra da natureza” e os Tawny “engenho do homem”, a generalidade dos Porto Vintage combina poder e elegância, estando nesta fase precoce já perfeitamente bebíveis e prometendo ainda muitas alegrias futuras, seja daqui por 15, 20, 25 ou mais anos. 

Torna-se, pois, difícil aconselhar o melhor dos períodos para a abertura das garrafas. Não sendo muito favorável à abertura destes vinhos nesta idade ainda tão imberbe, devo reconhecer que estes Vintage se apresentam surpreendentemente equilibrados neste momento. Nas marcas de topo e mais ambicionadas, o rateio de caixas já começou, dado que a exclusividade destes vinhos obriga muitas vezes a partilhar produções de quantidade singela por vários mercados do mundo. O conselho que daria seria o de o leitor tentar adquirir mais do que uma garrafa de cada exemplar, abrindo-as em diferentes épocas, acompanhando a respetiva evolução. E numa altura em que tanto se fala de aforro em Portugal, estes 2011 apresentam-se como um investimento seguro, com a vantagem não haver troika ou Gaspar que os tribute. Neste caso, a haver resgate que seja o do leitor… junto da garrafeira da sua confiança.


Nuno Guedes Vaz Pires | WINE-A Essência do Vinho