Por Nuno Guedes Vaz Pires, Diretor Executivo da revista WINE

Visito assiduamente o Brasil desde 1998, tendo colaborado na génese da “Expovinis”, em São Paulo. E é com alguma preocupação que verifico mais uma perda de influência portuguesa naquele país, face à anunciada aquisição daquela que se afirmou como das principais feiras profissionais de vinhos da América Latina por um grupo de capitais franceses. Não preocupado mas espantado fiquei quando recentemente li um artigo num jornal de referência português sobre o Brasil. Manifestamente fraquinho, o artigo mencionava verdadeiras pérolas de informação inquinada ou, pelo menos, não verificada, apontando como absolutos alguns factos que pura e simplesmente não correspondem à realidade e, assim, revelam um profundo e perigoso desconhecimento de um dos principais mercados das exportações portuguesas, de vinho mas não só.

O Brasil, país que possui uma das maiores economias mundiais da atualidade, tem enormes potencialidades, mas como os olhos do mundo estão sobre ele voltados é preciso, mais do que nunca, conhecê-lo, perceber as particularidades que detém. E porque está cada vez mais competitivo, porque é cada vez mais disputado por Davids e Golias do mundo do vinho, Portugal tem de ser inteligente na abordagem ao mercado brasileiro: incisivo mas prudente, corajoso mas não suicida, perspicaz mas sem amadorismos. Por isso dispensam-se tiros nos pés e “rol de bobagens”, como dizem no Brasil.

Seguimos muita desta lógica na primeira edição do evento “Essência do Vinho - Rio de Janeiro”, que decorreu em maio. A aposta foi ganha, como comprovam os comentários de produtores e importadores que estiveram representados no Centro de Convenções Sul América. Profissionais e consumidores também deram nota positiva ao “Essência” e muitos já nos questionaram sobre a data de 2014 (em breve a anunciaremos). O evento obteve ainda impacto mediático, tendo suscitado a atenção de agências de informação, rádios e televisão, sem esquecer a Internet e os blogues e, claro, meios da imprensa escrita de referência no Brasil, como o “O Globo” e a “Veja”. A dezena de provas temáticas realizadas teve lotação esgotada, incluindo jornalistas cuja opinião tem efetivo impacto e consumidores apaixonados por vinho que, embora numa fase ainda precoce de descoberta, estão sedentos por saber e conhecimento extras. Conseguimos, no fundo, adaptar o conceito português original do “Essência do Vinho - Porto” à realidade carioca, sem abdicarmos do posicionamento que desde o início definimos. Como foi possível? Porque conhecemos bem o mercado brasileiro, porque estabelecemos várias pontes antes de assumirmos o desafio, porque continuamos a ser ambiciosos nos objetivos a atingir mas prudentes nas estratégias a adotar. Porque conhecemos bem o Brasil. 


WINE-A Essência do Vinho