Por Nuno Guedes Vaz Pires, diretor executivo

Já perdi a conta às vezes que me confidenciaram que a rotina diária de espreitar os jornais e ver os noticiários televisivos foi repentinamente interrompida, pelo facto de não se querer ouvir mais falar de desgraças. Convenhamos que um país desgraçadamente afetado pela crise económica, por politiquices de pé e chinelo e outros desvarios públicos, como se encontra hoje Portugal, pode ser jornalisticamente interessante mas quase monotemático para quem consome Media. Esse afastamento, ainda que momentâneo, de leitores e espetadores poderá gerar outros dois fenómenos: cada vez mais, lemos e vemos apenas o que nos interessa; e muitas notícias de um certo “Portugal pela positiva” correm o risco de passar ao lado por entre a voracidade da notícia de agenda, do quotidiano. É também por isso que decido dedicar este editorial ao que se chama de investimento. Não aquele que se propala no discurso político, não aquele que se apregoa para o sound bite dos telejornais. Refiro-me ao que se pratica, ao que é real.

Com maior ou menor dificuldade, o setor do vinho em Portugal tem conseguido enfrentar a crise e manter-se à tona de água. Mais importante ainda, algumas casas têm reforçado projetos, aumentado quotas de exportação, combatido, enfim, os fados mais descrentes. Nas últimas semanas fiquei particularmente rendido ao fantástico novo vinho de João Nicolau de Almeida, o Quinta do Monte Xisto 2011, um tinto que desde já promete afirmar-se entre os melhores do Douro e que marca o lançamento do projeto de João Nicolau de Almeida e dos seus três filhos – Mafalda, Mateus e João, todos com ligação (estará mesmo no ADN da família) ao vinho. Ainda pelo Douro, o empresário brasileiro Marcelo Lima e o britânico Tony Smith acabam de anunciar a aquisição dos vinhos da Quinta das Tecedeiras à Dão Sul / Global Wines, tendo recentemente adquirido a Quinta da Boavista à Sogrape e, na fronteira entre a região dos Vinhos Verdes e o Douro, reabilitado a Quinta da Covela, com os primeiros resultados já visíveis. E por falar em Vinho Verde, um aplauso à entrada do dinâmico João Portugal Ramos naquela região, com a produção de um Alvarinho em Monção, e votos de muito sucesso ao novo enoturismo desenvolvido pelo produtor Pedro Araújo na Quinta do Ameal, em Ponte de Lima. Eis que assim, de truz e separados por um curtíssimo espaço temporal, se concretizam novos investimentos que comprovam o dinamismo de um setor e o assumir do risco de investidores, empresários, produtores e enólogos. 

Não me debruçarei sobre a dimensão de cada projeto, muito menos tomarei posição acerca do que serão os grandes desafios de cada um. Aliás, melhor do que eu, cada um destes nomes saberá as barreiras a ultrapassar para ser bem-sucedido. O que faço desde já é felicitá-los, sem exceção, pela nova aventurança, desejando que consigam concretizar os propósitos que os motivaram a ir mais além da nebulosa que se instalou no país. Felicitá-los, isso mesmo, por irem contra a corrente.


WINE-A Essência do Vinho