Por Nuno Guedes Vaz Pires, Diretor Executivo da revista WINE

Estas próximas linhas de texto são particularmente dirigidas aos detratores de um vinho criado em 1942 por Fernando Van Zeller Guedes, com uma imagem e conceito diferenciadores – que têm sido alvo de réplicas ao longo do tempo – e que hoje está presente em mais de 125 países, atingindo uma produção anual na ordem dos 20 milhões de garrafas. Sim, falo em concreto do Mateus Rosé, que a par do Vinho do Porto é o grande embaixador de Portugal no mundo do vinho… por muito que isso possa doer a alguns.

Relembro estes dados na sequência da recente eleição, pela publicação britânica “Drinks International”, do Mateus Rosé entre o top das 50 marcas de vinho mais admiradas no mundo. Um painel de mais de duas centenas de profissionais ligados à indústria colocou o Mateus na 37ª posição, sendo o único vinho português listado, num “ranking” que inclui nomes como Château Margaux, Château d’Yquem, Casillero del Diablo, Jacob’s Creek … por muito que isso possa doer a alguns.

Sou nascido, criado, vivo e trabalho em Portugal há mais de 40 anos. Adoro o meu país, tenho muito orgulho em ser português, mas sou dos primeiros a reconhecer que Portugal sofre de um duplo e terrível mal, a inveja e um certo mal dizer perante o sucesso do vizinho. Perante uma notícia custa-me perceber algumas reações de desdém. Eu, português cidadão, e eu, português ligado ao mundo do vinho, sinto-me orgulhoso. Afinal, o meu país consegue ter uma marca de vinho verdadeiramente global, com efetivo impacto e conhecimento, com a dimensão que tanto reclamamos, que gera riqueza, que emprega pessoas, que contribui para a notoriedade do meu país … por muito que isso possa doer a alguns.

Para lá do Mateus Rosé poderia citar outros casos, que infelizmente nem sempre têm o reconhecimento que merecem em Portugal, nomeadamente pela crítica e junto de uma certa franja de consumidores. Alguém ainda tem dúvidas sobre os méritos dos vinhos DFJ, da Casa Santos Lima, da VDS… São vinhos fáceis de beber, estrategicamente pensados para o gosto de determinados mercados-alvo, tão legítimos como quaisquer outros que tenham obtido 90 ou mais pontos na “Wine Spectator” e quase sempre com uma uniformização que é muito mais difícil de atingir do ponto de vista técnico e enológico do que um grande vinho, de uma só colheita… por muito que isso possa doer a alguns.

Dirijo uma revista que desde a primeira edição procura destacar os vários mundos do mundo do vinho e quanto mais viajo com mais certezas fico sobre a importância de os consumidores perceberem o enquadramento e perfil de um determinado vinho. Porque ele, o vinho, é uma paixão, um arrebatamento, mas é também um produto, um negócio, com possibilidade e legitimidade para múltiplas abordagens. E quando um país com a dimensão de Portugal consegue ter tamanha diversidade de interpretações e estilos de vinho, quando uma marca portuguesa emerge por entre um aguerrido mercado mundial, todos os portugueses deveriam elogiar e contentar-se com esse facto, independentemente de serem ou não consumidores ou fãs dessa marca… sem dor.


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