Por Nuno Guedes Vaz Pires, Diretor Executivo da revista WINE

Bordéus, em destaque nesta edição, é a região de vinhos de maior notoriedade à escala planetária. A imagem que transmite tem estado associada, em longo de décadas, a alguns dos melhores vinhos do mundo, a boa parte dos mais exclusivos châteaux, a uma certa “art de vivre” muito embalada pelo próprio glamour que um país como a França consegue transpor. Nos dias de hoje, todavia, não basta ter uma boa imagem ou um bom produto. É preciso valorizar permanentemente essa riqueza, aprender a mostrá-la e saber comunicá-la ao voraz século da informação.

Pois bem, arrisco sentenciar que poucas regiões no mundo terão o charme e o historial dos grandes vinhos de Bordéus… como o Douro. Senão, vejamos: a região portuguesa é das mais belas paisagens vinhateiras, a primeira região demarcada do mundo, onde se produz um vinho único e com reconhecimento igualmente planetário, o Vinho do Porto. Mas poderá o Douro – o Vinho do Porto, em particular – assumir-se, em notoriedade, como Bordéus? Poder até que poderia, mas…

O “mas” a que me refiro é, sobretudo, uma questão de estilo e de (falta de) visão em muitos detalhes. Se a região de Bordéus tem châteaux que nos fazem suspirar, rótulos de vinho que fazem milhares perder a cabeça e pagar outros milhares por uma só garrafa, o Vinho do Porto tem a favor uma incrível paisagem natural (os socalcos do Douro), o encanto das caves em V.N. de Gaia, rótulos com centenas de anos e vinhos absolutamente memoráveis, colheitas recentes (para não falar das antigas, algumas com bem mais de um século) que podem fazer as delícias dos mais exigentes amantes do vinho.

Bordéus, enquanto cidade, promove um eventual popular de rua em torno do vinho, que atrai milhares de visitantes, e convida anualmente os mais influentes líderes de opinião mundiais a provar “en primeur” os vinhos da última colheita. Os mais prestigiados châteaux da região, os Grand Crus Classés 1855, organizam, aquando a “Vinexpo”, jantares memoráveis tendo por convidada a imprensa estrangeira, que aplaude de pé protagonistas de Bordéus, como a Baronesa Philippine de Rothschild e o presidente da Câmara Municipal de Bordéus (e ex-primeiro-ministro francês), Alain Juppé, tal o respeito e admiração que nutrem pelas grandes figuras do vinho bordalês. E o Vinho do Porto?

A procurar inverter uma década em queda de vendas, o Vinho do Porto parece por vezes demasiado conformado com os autocarros que depositam turistas nas caves de Gaia e nos barcos que sobem e descem o rio, excessivamente confiante nos resultados a longo prazo de uma recente declaração de Vintage – 2011 – que ecoou além-fronteiras, precocemente derrotado pelo queixume, posteriormente amargurado pelo que poderia ter sido feito. O que faria Bordéus, região e cidade, se tivesse em mãos um produto como o Vinho do Porto? Reuniria os grandes nomes mundiais do vinho num local emblemático para lhes apresentar os Vintage 2011? E realizaria um grande festival de índole popular sobre o Vinho do Porto, na cidade? Articularia com uma diversidade de operadores turísticos, procurando estabelecer uma rede capaz de mostrar, realmente, o melhor da região do Douro a quem está de visita à cidade do Porto? E seria Rui Moreira, tal como Alain Juppé, um dos principais embaixadores do Vinho do Porto? E seria Manuel de Novaes Cabral, presidente do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto e profundo conhecedor dos temas de enoturismo, um dos principais impulsionadores da criação da tal rede? Seriam ambos, dada a visão mundividente e desempoeirada que possuem, dos principais embaixadores da marca Vinho do Porto, dois dos impulsionadores de um novo paradigma de comunicação e posicionamento do Vinho do Porto?

No capítulo do vinho, um Porto como Bordéus só teria a ganhar. As cidades já o perceberam há algum tempo: estão geminadas desde 1978, pertencem ambas às capitais dos grandes vinhedos do mundo (Great Wine Capitals), desde 1999, e Bordéus foi a primeira cidade europeia onde se experimentou um Solar do Vinho do Porto, 2004. E o setor do Vinho do Porto, quando o perceberá?


Redação | WINE-A Essência do Vinho