Cinco gerações separam o escocês Andrew James Symington, o primeiro Symington a trabalhar no negócio de Vinho do Porto, e o Graham’s Ne Oublie um Porto Colheita de 1882 apresentado pela familia na Christie´s, em Londres, no passado dia 18 de junho.

Os presentes puderam degustar este elixir com aromas de cânfora, caramelo, avelãs, chocolate, passas de corinto, onde a frescura trai os 132 anos numa cumplicidade em que o açúcar, taninos e álcool parecem ter-se evaporado. Numa palavra – único. Apenas um de três cascos que foram comprados nos anos 1920, de um lavrador duriense, foi engarrafado. A terra que lavramos hoje não nos pertence, foi emprestada pelos nossos filhos e eles, apenas eles, e nunca antes de 2025, decidirão do destino dos outros dois cascos.

A família Symington fundiu e pretende revelar neste conceito as origens com prata da Escócia por Scottish Silversmiths Hayward & Stott, couro inglês com Smythson of Bond Street e cristal português da Atlantis. Paul Symington hoje à frente dos destinos da companhia, “Personalidade do Vinho do Ano 2013”, pela revista WINE – A Essência do Vinho e ainda “Decanter´s Man of the Year 2012”, num discurso direto e emocional, falou sempre da família e exaltou o Douro e o orgulho de ter nascido a escassos metros do rio, no Porto. Em nome da família Symington afirmou ser “raro, muito raro ser possível degustar um vinho com aquela idade e de uma beleza exquisite. Ne Oublie atravessou momentos e ocasiões históricas, sobreviveu a duas guerras mundiais e à revolução de 1974, um testemunho que orgulha a família em poder partilhar esta memória extraordinária e comungar com um passado tão distante. Ne Oublie é algo de profundamente pessoal e emocional para a família  e resulta de um casco que passou 40 anos a amadurecer no calor do Douro antes de ser transferido para um clima mais marítimo e fresco, nas caves em Gaia, desde 1925”.

Cada uma das 656 garrafas de Ne Oublie estão agora disponíveis a 5.500€. Pois... Um jornalista perguntou-me se eu achava que o preço justificava a qualidade do produto. Numa era em que os implantes e mudança de sexo são uma realidade, em que as pessoas dormem à porta da Apple por causa do iPhone 5S, tablets, smartphones, drones e até vinho sem álcool, perguntam-me se o preço a pagar por 132 anos é "caro"? “You know what?”, senhor jornalista? Respondo agora. Não tem preço. Sorte a nossa que a família Symington decidiu comercializar esta relíquia.

Ne Oublie é mais do que um Vinho do Porto, é mais do que um vinho, é mais do que um investimento. É uma espécie de “agent provocateur”, a pegada que já lá não está, mas persiste, a impressão digital finalmente revelada por uma lupa chamada Atlantis, a controvérsia do segredo, sobreviver ao passado, a memória do infindável e - bom não esquecer -… a exclusividade está sempre na moda, sempre atual.

Como alguém um dia afirmou... ”Quando mudas a forma de olhar para as coisas, as coisas para que olhas mudam”. A não esquecer, nunca.

João Pires | WINE - A Essência do Vinho