Conheceram-se na vindima de 2009 e tudo acabou (ou melhor, começou) em casamento. Etienne Hugel, diretor-geral da Hugel & Fils, há muito que se deixava seduzir pelo Japão e daí a enamorar-se por Kaoru Mustuyoshi, sommelier da cadeia hoteleira Four Seasons, a estudar para tornar-se “Master of Wine”, terá sido um piscar de olhos.

Partilham a história à mesa do restaurante Gull, no Porto, o outrora Bazaar. Depois do cocktail de boas-vindas no terraço, que mantém uma vista invejável sobre o rio Douro, com o Gentil Blanc 2012 (vinho de apelo imediato, moldável para qualquer ocasião e a um preço imbatível em torno dos 10€), já no interior preparou-se um menu de degustação com pratos de sushi – um arrojo, quando à mesa está uma japonesa. A verdade é que o Japão é o mais antigo e importante mercado de exportação para Hugel & Fils. O trajeto iniciou-se em 1950 e hoje o Japão absorve mais de 50% do total de exportação deste produtor para o mercado asiático.

Com o irmão Marc, enólogo, e o primo Jean-Philippe, financeiro, Etienne mantém o espírito familiar da empresa. Bem-humorado e frenético, apresenta cada vinho com uma simplicidade desconcertante, falando nesta ocasião num inglês com sotaque franciú com todas as mesas. E na mesa de Etienne senta-se Paul Symington, “Personalidade do Ano 2013 no Vinho” para a revista WINE - A Essência do Vinho. Ambos já se conhecem há vários anos e partilham o restrito grupo Primum Familliae Vini, associação de grandes famílias do mundo do vinho, criada em 1992, e que também reúne outros nomes como Château Mouton Rothschild (Bordéus, França), Egon Muller Scharzhof (Moselle, Alemanha), Famille Perrin (Vale do Ródano, França), Maison Joseph Drouhin (Borgonha, França), Marchesi Antinori (Toscânia, Itália), Miguel Torres (Penedes, Espanha), Pol Roger (Champagne, França), Tenuta San Guido (Toscânia, Itália) e Vega Sicilia (Ribera del Duero, Espanha).

O prestígio dos vinhos Hugel & Fils fica demonstrado durante o jantar, na passada quarta-feira. Além do já citado e versátil Gentil Blanc 2012, provam-se o Gewurztraminer Blanc 2011, Pinot Gris Tradition Blanc 2011 e Riesling Blanc 2012. As estrelas da noite?... O Riesling Jubilee Blanc 2008, inicialmente renitente, para depois se revelar em aromas minerais profundos, algumas notas de fruta tropical e funcho. Bem mais solto na boca, sem que a elegância saia beliscada, com picos de acidez no médio palato e um final longo, que dura, dura, dura. A cereja em cima do bolo?... O encantador Gewurztraminer Vendange Tardive Blanc 2005, cheio de fruta tropical madura e compota de fruta branca. Não se bebe, mastiga-se, com uma doçura que é sabiamente amparada por dose de acidez no ponto, tal como corpo e alma se fundem. Se é permitida a apropriação de uma conhecida música de Caetano Veloso, um vinho de “beleza pura”. E por falar em Brasil, sabia que há registos da primeira exportação de vinhos Hugel & Fils para São Paulo, igualmente em 1950?

JJS | WINE - A Essência do Vinho