AS VINHAS AÇORIANAS estão plantadas em terrenos onde salta à vista o negro da pedra vulcânica. São vinhas quase sempre protegidas pelos ali chamados “currais” ou “curraletas”, muros que envolvem os vinhedos e criam autênticos desenhos geométricos. É uma forma de proteger a vinha dos ventos marítimos do Atlântico e que ajuda a conservar no solo o calor e a humidade suficientes para facilitar a maturação das uvas. Estas características facilmente as notamos no Pico, a ilha dos Açores em que a produção de vinho está mais enraizada. Em Madalena do Pico, a escassos metros do mar, ali está a vinha numa paisagem onde o verde das folhas e o cinza da pedra consegue ser quebrado por alguns moinhos revestidos cor vermelha. Uns passos adiante, já a sentirmos a rebentação das ondas, pisamos terrenos de lava seca. Num olhar mais atento conseguimos decifrar canais outrora esculpidos que serviam para fazer deslizar as barricas de vinho até aos barcos que aí aportavam. O vinho era então transportado para a vizinha ilha do Faial, um ponto estratégico de partida das produções do Pico para o resto do mundo. Pode parecer exagerado, mas a história prova-nos o contrário. Nos séculos 18 e 19 este vinho era exportado em grande quantidade para o Norte e Leste da Europa. Terá sido uma família de comerciantes alemães, a família Wants Walter, que o decidiu levar até à corte inglesa e logo aí o vinho açoriano passaria a constar no cardápio dos banquetes reais. A fama também se estendeu aos czares russos que enviavam barcos ao arquipélago para recolher o vinho do Pico. Há até há relatos que indicam a descoberta de garrafas de vinho Verdelho do Pico em caves de antigos czares, no pós-revolução bolchevique de 1917. Também as Américas ficaram rendidas e no Brasil o vinho do Pico era recomendado para fins medicinais. Este fulgor viria a ser interrompido ainda no século 19, com as pragas de oídio e filoxera a dizimarem as vinhas. Passaram-se décadas com produções escassas, quase todas para simples consumo familiar, até que nos últimos anos se tem a sistido a tentativas de reabilitar uma produção histórica, em que a casta Verdelho (que proporciona o envelhecimento em garrafa e transmite aromas que evocam frutos tropicais) continua a servir de alicerce.
PATRIMÓNIO DA HUMANIDADE DESDE 2004
As vinhas e paisagem envolvente da ilha do Pico foram classificadas pela UNESCO como Património da Humanidade, em 2004. São 987 hectares de área protegida, nas zonas de Cabrito, Arcos, Lajido de Santa Luzia, Cachorro, Cais do Mourato, Pocinho, Porto do Calhau, Fogos e Ana Clara, pontos quase obrigatórios num passeio pela ilha. Boa parte destas micro-regiões situa-se junto ao mar e vigiada pelo ponto mais alto de todo o país, a montanha do Pico, com 2351 metros de altura. O Gabinete Técnico da Paisagem Protegida da Cultura da Vinha do Pico foi a estrutura criada pelo Governo Regional açoriano para gerir, proteger e fiscalizar o património classificado. A funcionar em Madalena do Pico, este gabinete aprova ainda projectos de reabilitação de vinhas e edifícios degradados.
VERDELHO... MAS TAMBÉM MERLOT E CABERNET
No Curral de Atlântis, no Pico, domina a casta Verdelho, mas tendo por companhia outras, nomeadamente Arinto e Terrantez. O projecto arrancou em 1995, liderado por Manuel e Marco Faria, pai e filho, e tem agora o apoio enológico de Paulo Laureano. Os quase 13 hectares de vinha estão plantados numa encosta, um pouco mais afastada do mar e com acessos que obrigam a irromper pela vasta vegetação da ilha. Este produtor tem quatro vinhos no mercado, incluindo dois tintos elaborados a partir das castas estrangeiras Merlot e Cabernet Sauvignon. O arquipélago açoriano é o destino principal das garrafas, mas em algumas garrafeiras de Portugal Continental e em Macau também as conseguimos descobrir. Em 2008 será lançado um vinho licoroso, com um envelhecimento de cinco anos em barricas e recorrendo às castas Verdelho, Arinto e Terrantez.
José João Santos | blue Wine 09