ERA PARA SER uma celebração do 150º aniversário de uma das grandes casas de Borgonha, a Louis Jadot, mas o convite era tão extenso que pensei tratar-se de um calendário. Por pouco não o abri e que tragédia teria sido…
O convite de Pierre-Henri Gagey, actual responsável pela empresa, remetia-nos para uma prova e um jantar, mostrando fotografias dos seus quatro predecessores (incluindo o pai, André Gagey) e uma lista surpreendente de vinhos que estariam presentes em prova. Os brancos, de 1986 a 1885, e os tintos, até 1865! Um momento realmente a não perder, mas estes vinhos ainda estariam bons? A Louis Jadot é uma empresa impressionante, propriedade da família Jadot há 126 anos e, desde 1985, da família Kopf – proprietários dos distribuidores americanos da Jadot, a Kobrand. Nestes 24 anos, os Kopfs têm permitido a gestão da empresa aos franceses. Houve momentos em que a Kobrand pediu aos Jadot para fazerem vinhos com um estilo mais suave, mais acessíveis para o mercado norteamericano, embora a resposta tenha sido “não”. Jacques Lardière, enólogo da Jadot desde 1970, prefere vinhos que durem, pelo menos, 15 anos. E é apoiado por Pierre-Henry Gagey. "É por termos tempo que nós produzimos grandes vinhos. Com os Borgonha, só as pessoas que sabem esperar é que realmente apreciam o vinho", afirmou Gagey. Uma vez, disse algo similar à Wine Spectator: "Nós gostamos de vinhos antigos. Estamos conscientes de que a moda actual é a de admirar apenas a fruta dos vinhos, mas nós adoramos nuances de couro, tabaco, café. Preferimos ter um vinho que seja fechado e subtil, do que um vinho que é explosivo enquanto jovem." Bom, esta prova seria um teste para a filosofia de Jadot. A prova de brancos, de acordo com Pierre-Henry Gagey, era "apenas por diversão". Os tintos seriam a “parte séria” da prova e havia um tinto de cada uma das décadas de vida da empresa, de 1860 a 2000. A diversão começou com um Corton Charlemagne de 1986. Nada de insólito nisso, poderá pensar, um vinho com 23 anos de uma denominação com um desenvolvimento notoriamente lento, numa colheita muito boa para os vinhos brancos. Devia ser magnífico. E foi, uma mistura complexa de avelãs, “marshmallows” torrados e sabores a manteiga, com uma acidez elegante, ainda em grande forma. Voltamos atrás no tempo com um Chablis Premier Cru Fourchaume de 1964. Estava a desvanecer-se rapidamente, com elevada acidez, um aroma a caramelo e um sabor muito cítrico. Passamos para um Chevalier-Montrachet Les Demoiselles de 1959. Uma garrafa estava a perder características rapidamente. Curiosamente, a outra parecia ter um problema talvez relacionado com a rolha. Então, seria essa a idade para além da qual os brancos não tinham mais nada para dar? Em seguida veio um Corton Charlemagne de 1928. De cor amarelo dourado, mel no nariz, estava muito vivo. Tinha algo de mel, um carácter botritizado, uma acidez muito alta, assim como o grau alcoólico.
Não é de todo um estilo corrente, mas não deixou de ser fascinante, um vislumbre de um passado menos regular (ou regulamentado?). Incentivados, passamos para um Montrachet de 1904. Era castanho-dourado, com aromas doces e frutados de coco e mel. Jacques Lardière, anunciou que era doce e provavelmente nunca tinha terminado a sua fermentação alcoólica ou maloláctica. Era um vinho surpreendente, francamente doce, com sabores fortes de coco e mel e elevada acidez. Podia durar décadas. O Montrachet de 1898 era ainda melhor. Aromas de torrada, mel, limão e ameixas amarelas, seguidos por sabores secos, tostados, caramelizados, certamente maduros mas ricos, muito equilibrados e intensos. Este vinho tinha 111 anos, mas era surpreendentemente moderno. O último branco veio das adegas da Champy (comprada pela Jadot em 1989), um Meursault de 1885. Tinha extraordinários sabores cítricos, de queijo, com uma pitada de cogumelos e uma acidez muito elevada, mas ainda estava vivo, ainda desafiava. Um vinho de uma época diferente, com notas de toranja, queijo e história. Teria sido a preparação para a segunda parte da prova.
TINTOS… ATÉ DO SÉCULO XIX
O primeiro vinho tinto, o Jadot Bonnes Mares de 2003, de uma colheita atipicamente quente, revelou-se fantástico. Tinha uma fragrância óptima, a framboesa e “kirsch”, e uma frescura e juventude que desmentiam o calor daquele ano. Muito equilibrado, elegante, jovem e perfumado, mas com taninos firmes e sedosos e boa acidez. Os anos 90 foram representados por um Gevrey-Chambertin Clos Saint-Jacques de 1997. Este também era muito jovem, com aromas de café torrado e cereja madura. Seguiu-se um fabuloso conjunto de sabores de cereja e framboesa, uma pitada de pêra fresca, com um desenvolvimento saboroso e taninos firmes e maduros. O Beaune Clos des Ursules de 1985 que se seguiu parecia estar no meio, nem jovem nem frutado, nem saboroso nem maduro. Mas tinha uma acidez fresca e bons taninos. Para guardar. O Musigny de 1978 começou por apresentar um desenvolvimento interessante. Tinha sabores de cogumelos, de especiarias e torradas, enquanto o vinho permanecia fresco e saboroso. O comprimento de boca era picante, saboroso e complexo, com notas de doce de laranja e canela. Em seguida, uma garrafa magnum de Gevrey-Chambertin Clos Saint-Jacques de 1966 (das caves Clair Dau, comprada pela Jadot em 1986). Tinha aromas encantadores de pétalas de rosa, frutos secos e madeira velha doce, um carácter caramelizado, de confit de framboesa, e bom equilíbrio. O Chambertin Clos de Bèze de 1953 tinha-se transformado de fruta jovem para uma maturidade saborosa. Era elegante, com um aroma forte a madeira, boa acidez, belo equilíbrio e frescura. Isso levou-nos de volta à primeira metade do século XX. A partir daqui, falamos de vinhos verdadeiramente antigos. O primeiro foi um Beaune Boucherottes de 1949. Um encanto, leve e saboroso, com uma pitada de cogumelo no nariz. Paladar leve e elegante, com alguns taninos vivos, notas de cereja e “kirsch”, comprimento e porte. Uau! Para não ficar atrás, o Chambertin de 1937 que se seguiu era fabuloso. O bouquet era cremoso, com uma pequena nota de “durian”. O paladar começou por ser leve e saboroso, com acidez um pouco elevada, e o remanescente de taninos firmes. Em seguida, outros sabores foram sendo construídos, violetas caramelizadas e framboesas fumadas, mantendo-se saborosos e florais. Brilhante! Seguiu-se outro Beaune Clos des Ursules, desta vez de 1929. Trufas e “sousbois”, a descrição francesa dos cheiros de madeiras húmidas. Paladar intensamente saboroso, com uma doçura caramelizada, equilibrado e perfumado, embora já num declínio gracioso. Então veio o Pougets Corton de 1915, caramelizado, com cogumelos e rico (como poderia um vinho com esta idade ser ainda tão bom?). Era realmente poderoso, com taninos firmes e um sabor quase a ameixa, uma reminiscência do “gin damson”. O último vinho do século XX foi o Beaune Clos des Couchereaux de 1904. Muito leve, com uma elegância a desvanecer e uma fraca nota de lavanda, mas também a desaparecer. Certamente que tinha de acabar por aqui. Mas havia ainda quatro vinhos do século XIX para provar.
O Clos Vougeot de 1898 foi o primeiro, com aromas complexos, cremosos, saborosos. Parecia estar em boa forma, com bons taninos e acidez viva. Uma leve nota de cogumelos foi seguida por frutas confitadas, flores secas e uma pitada de queijo. O final veio abruptamente, deixando sabores resinosos. Em seguida, Clos de Tart de 1887 (das caves Champy), surpreendentemente fresco e vigoroso, com aromas de creme doce, mel e “durian”, taninos firmes e acidez viva. O paladar tinha algo de groselha, uma pitada de arroz doce. E ainda haveria mais maravilhas. A primeira foi o Pommard de 1878. Tinha uma cor granada rica e um cheiro de doce de morango acabado de fazer, com uma pitada de torrada. O morango caramelizado persistia, com taninos firmes, acidez viva e intensidade saborosa. O vinho era extraordinariamente equilibrado e fresco, ainda exercendo o seu poder de sedução após… 131 anos! Para não ficar atrás, o último foi o Corton de 1865. A cor era granada clara, o nariz saboroso, cremoso, a compota de morango, muito complexo. No palato, elegante, saboroso e vivo, com uma intensidade e graça encantadoras.
Era um Borgonha de grande idade, complexo, ainda muito vivo e exercendo um verdadeiro fascínio. O comprimento era sedoso e elegante, intensamente saboroso e deliciosamente equilibrado. Pierre-Henry Gagey dedicou o dia e o maravilhoso jantar que se seguiu (sim, ainda mais grandes vinhos e boa música), a Louis Jadot e André Gagey, seu pai. As três gerações de Jadots, Louis Henry Denis, Louis Jean-Baptiste e Louis Joseph Auguste, assim como André Gagey, teriam ficado orgulhosos. Da sua empresa e dos seus vinhos.
Charles Metcalfe | Wine 42