propriedade: Essência do Vinho
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Reportagens

VIAGEM PELA ALSÁCIA

ESTAMOS NO TERRITÓRIO dos vinhos brancos, um imenso mundo que muitas vezes não exploramos como deveríamos. Aqui, são poucas as hipóteses de degustar um vinho tinto, excepto o Pinot Noir. Mas é este sensitivo mundo das castas brancas alsacianas que convidamos a descortinar, passo a passo, uma vez que é gloriosa a diversidade e riqueza notórias que despertam no nosso palato e nariz. Com uma especificidade muito própria - que passa pela geografia, a geologia e o clima - o resultado é um manancial de vinhos, na sua grande maioria (cerca de 91%) brancos, secos e com grande potencial aromático. Não é por acaso que esta é uma das regiões mais “gourmandes” de França, com uma paleta riquíssima de vinhos e propostas gastronómicas que tiram partido cúmplice entre si. Os vinhedos estendem-se em suaves colinas a perder de vista, serpenteando entre vilas-arquétipo, com as típicas casas, em tabique, castelos medievais ou renascencistas, mas imponentes. Não será decerto por acaso que o filme “A Grande Ilusão“, de Jean Renoir, foi aqui rodado.
Nada como começar esta jornada com a prova de um Crémant da Alsácia, outro tipo de vinho cuja suave efervescência (feito a partir de Pinot Blanc, Riesling e Pinot Gris) o torna ideal como aperitivo. Numa das esplanadas de Colmar, uma das cidades-coração dos vinhedos alsacianos, começamos o nosso percurso. Colmar tem um microclima ensolarado, uma vez que é a segunda cidade mais seca da França (depois de Perpignan), com uma precipitação anual de somente 550 mm, tornando-a ideal para o vinho da Alsácia.

São 160 as localidades que cultivam aqui a vinha. Por isso, percorremos apenas algumas entre o Alto e Baixo Reno, respectivamente Kayserber, Riquewihr, Ammerschwihr, Kientzheim, Ingersheim e Wintzenheim. A sul, Westhalten, Husseren-les-Châteaux, Wettolsheim, Eguisheim, Rouffach e Pfaffenheim. Tendo em conta que a cultura da vinha remonta ao tempo dos romanos, merovíngeos e carolíngeos, e que o esplendor se atingiu na Idade Média, todas estas pequenas vilas posuem o charme de tempos passados e encontram-se impecavelmente preservadas. Na Rota dos Vinhos da Alsácia podemos percorrer 170 quilómetros, num “patchwork” de vinhas, paisagens de cortar a respiração, vilas medievais, igrejas românicas e da Renascença.
Mas sempre tropeçando em cada canto numa “weinstub“, numa cave ou adega para provar vinhos ou abrir “in loco” uma “flûte d’Alsace”, a garrafa protegida pela lei, porque a coluna vertebral da região é, sem dúvida, a cultura do vinho. E, depois, existe sempre uma panóplia de laivos de culturas miscigenadas, uma vez que a região faz fronteiras com a Alemanha, a norte, com a Suíça, a leste, com a região francesa de Franche-Comté, a sul, e da Lorena (Lorraine), a oeste.
Das portas de Marlenheim (Baixo Reno) às de Thann (Alto Reno), o tempo parece parar para nos abrir caminho a um trilho onde se descobre a alma e essência destes vinhos, cuja produção anual chega aos 1,12 milhões de hectolitros (150 milhões de garrafas).

As sete principais castas - Riesling, Gewurtztraminer, Muscat da Alsácia, Pinot Blanc (Klevner ou Auxerrois blanc), Sylvaner, Pinot Gris, Klevner d’Heiligenstein (Savagnin rosa, muito rara mas que continua a ser cultivada, num sector muito restrito) e Pinot Noir - constituem a marca da Alsácia. Destaque ainda para os colheita tardia, outra das especialidades alsacianas, para além dos SGN (Seleccion de Grains Nobles) e Grands Millésimes.
Claro que se pudermos dar-nos ao luxo de optar por alguns produtores de Grand Cru, tanto melhor. Sendo que, até há bem pouco, só quatro castas (Riesling, Gewurtztraminer, Muscat e Tokay-Pinot Gris) os podiam originar - o que resulta em cerca de 4% da produção total das vinhas alsacianas. A superfície destas vinhas dedicadas aos Grand Cru pode variar entre três hectares (Kanzlerberg, por exemplo) e 80 hectares (Schlossberg) e existem apenas 51 produtores deste tipo de vinho. Contudo, desde 2005, a Sylvaner pode também gerar um Grand Cru, mas apenas no vi nhedo de Zotzenberg.

Os Grand Cru são vinhos mais complexos e interessantes, que beneficiam do tempo em garrafa. Entre os mais famosos estão Brand, em Turckheim, Rangen, em Thann, Kastelberg, em Andlau, e Sporen, em Riquewihr. Mas, de uma maneira geral, os vinhos AOC (Appellation d’Origine Contrôlée ) possuem uma especificidade muito própria, consoante os “terroirs” que, por estas bandas, são marcados por uma grande diversidade e riqueza geomorfológica incríveis. Trata-se de um verdadeiro mosaico que varia do granito ao calcário, do xisto à argila e marga, e se estende por cerca de 12 mil hectares. Tudo isto aliado a um clima semicontinental - quente e com pouca chuva - ou seja, propício à maturação lenta das uvas, resultando numa eclosão de aromas de grande subtileza que obriga a descortinar… calmamente.
Os “terroirs” caracterizam os vinhos com pormenores identitários que os tornam únicos à mesa. Assim, cada casta alsaciana permite degustar, pela sua diversidade, um manancial de pratos e retirar-lhes as suas potencialidades de formas diferentes, o que se torna num curioso exercício. Os solos graníticos, com boa exposição solar, nas montanhas dos Vosgos - com um pico qualitativo a nordeste de Colmar - geram os Grands Crus de Niedermorschwihr e de Turckheim ou Kientzheim, Winzenberg, Praelatenberg, Frankstein, Schlossberg, Wineck-Schossberg, Brand ou Sommerberg. Os solos argilo-calcários, na fronteira vosgoniana, junto ao Reno, trazem muita potência e estrutura ao vinho, acidez longa e complexidade, sendo os Grands Crus originários de Engelberg, Florimont, Hatschbourg, Hengst, Kirchberg de Barr, Marckrain, Mambourg, Mandelberg, Sonnenglanz, Steingrubler. Já os solos argilosos originam Riesling potentes, muito aromáticos, evocando especiarias, flores como lírios ou notas balsâmicas, de taninos muito perceptíveis, e que ganham carácter e complexidade com a idade - os Grands Crus de Altenberg de Bergbieten, Eichberg, Froehn, Osterberg, Sporen. Finalmente, rocha sedimentar calcário-margo-argilosa traz notas minerais, disparidade olfactiva complexa, como anis, noz moscada, notas vegetais e florais. Muito frutados e minerais, de vinhas nobres, revelam-se apenas passado cinco anos, no mínimo de guarda – como os Grands Crus de Pfersigberg, Kirchberg de Ribeauvillé, Ollwiller, Saering, Spiegel, Vorbourg, Zotzenberg ou Geisberg.

TRILHOS DE UMA ROTA ENCANTATÓRIA
Tendo em conta que a cultura do vinho na Alsácia remonta a uma época anterior à conquista romana, a tradição impera mas a vinificação moderna, de forma geral, utiliza a alta tecnologia. Uma das singularidades mais marcantes da produção vinícola da Alsácia é a designação dos vinhos em função das castas e não da origem geográfica, salvo algumas excepções, como a marca Les Sorcières, de Riquewihr. A zona compreendida entre esta povoação e Ribeauvillé corresponde, aliás, a uma das mais importantes aglomerações vinícolas da Alsácia.Refira-se que, durante a Idade Média, os vinhos da Alsácia eram já exportados para Inglaterra e Escandinávia e, no século XVIII, eram muito apreciados na Áustria e na Suíça. O “savoir vivre” (saber viver) é uma filosofia que os alsacianos prezam. Daí que, para além dos casamentos de boa comida e bons vinhos, exista toda uma postura descontraída que convida a experimentar e partilhar. As conversas fluem com os produtores de vinho, que habitualmente escolhem as ruas das cidades medievais ou os seus vinhedos para uma pausa, trocando impressões e provando vinhos.

Aqui, celebra-se o vinho de forma calorosa, pelo que ao deambular pelas cidades e vilas pitorescas, até a arquitectura evoca a cultura da vinha. Portanto, não é de admirar que as curiosas casas de tabique possuam pátios interiores - óptimos pontos de escolha para uma prova de vinhos - prensas e outras estruturas de apoio aos trabalhos vitivinícolas. Muitas casas conservam a traça medieval ou renascentista em belíssimo estado de conservação e algumas são paradigmas que obrigam a uma visita, como a Maison du Gourmet, em Kaysersberg.
Uma forma inteligente de palmilhar a região são os 38 trilhos vitícolas alsacianos que permitem conhecer de perto as vinhas, castas, produtores e vilas históricas, penetrando no coração dos vinhedos. A duração de cada percurso é normalmente de 1h30 a 2h30 e estão sempre bem sinalizados, entre as vinhas que serpenteiam a região. Os passeios pedestres são, assim, uma das melhores maneiras de conseguir sentir o pulso à Alsácia.
O acolhimento dos viticultores é sempre afectuoso e entre Katzenthal, Niedermorschwhir, Turckheim e Ammerschwihr existem as condições ideais para degustar vinhos, distinguir as várias castas e conhecer de perto os métodos de vinificação. De forma artesanal, explicam-se as melhores formas de trabalhar a terra, os diferentes métodos para respeitar a Natureza, as especificidades dos solos, as tradições. As vilas pitorescas, os castelos (Château du Haut Koenigsbourg, Château du Hohlaandsbourg Schon ou Château Isenbourg) são outros locais que obrigam a uma visita, para não falar do Museu da Vinha e do Vinho, em Kientzheim.

O DESAFIO ENTRE VINHOS E GASTRONOMIA
Secos e aromáticos estes vinhos são sempre óptimos como aperitivo. Por isso, é muito comum encontrar gente a bebê-los nas esplanadas, à tarde ou ao final do dia, antecipando uma refeição. Delicada acidez e aromas suaves permitem passar para a refeição principal, sem excesso de açúcar ou álcool. Contudo, os Grands Crus e os colheita tardia ganham com o tempo.
Genericamente combinam muito bem com frutos do mar e peixe. O Sylvaner, muito fresco e leve, casa especialmente bem com moluscos ou sushi, enquanto o Riesling, delicadamente frutado, com nuances minerais ou florais, faz boa maridagem com peixes (nomeadamente o salmão) ou carnes brancas, e o Gewurztraminer, rico em aromas de frutos exóticos, poderoso e sedutor, alia-se com crustáceos, queijos ou sobremesas, sendo também óptimo aperitivo. Para conseguir uma boa aliança com carnes brancas, respeitando o seu sabor delicado, o Riesling é o ideal, enquanto o Pinot Gris será mais indicado para acompanhar carne assada. Já com o Gewurztraminer, um prato de porco com ananás resultará, por exemplo, num bom “maridage”, devido ao exotismo dos dois.
Os vinhos brancos aromáticos da Alsácia associam-se também de forma harmoniosa com queijos de pasta mole e doce, como Munster, (Sylvaner, Pinot Blanc) ou queijos de cabra (com Riesling, em especial). Os queijos mais intensos apelam a um Gewurztraminer e, como vinhos secos, acompanham também muito bem as sobremesas, a par dos Crémants da Alsácia. Para as mais ricas em açúcar, os colheita tardia podem ser uma boa opção. E os Grand Cru Riesling são de facto excepcionais - conhecer de perto os Trimbach, o Clos Ste Hune, o Grand Cru Rosacker, a Cuvée Frédéric Emile ou Grand Cru Osterberg será uma oportunidade a não perder. O Riesling é, aliás, considerada como a primeira das sete castas alsacianas, a âncora e coluna vertebral dos vinhedos da região. Muito flexível, as micro-variações de composição dos solos transmitem-lhe muito fielmente identidades próprias, podendo ter matizes cítricas, de tília, ananás, maçã, mel de acácia e pêssego a amêndoa tostada, tabaco e moka, sendo longo na boca. Ao contrário dos Gewurztraminer e Tokay-Pinot Gris, que podem ser bebidos jovens, os Rieslings de topo precisam de alguns anos para se revelar. Quanto ao Pinot Blanc (Klevner ou Auxerrois blanc) possui uma estrutura de corpo classicamente equilibrada, sendo muito frutado, moderadamente mineral e evocando aromas florais de violeta.
Outra casta rara e interessante é a Klevener d’Heiligenstein (Savagnin rosado), designada como a ascendente do Gewurztraminer, que continua a ser cultivada mas num sector muito restrito. São vinhos perfumados sem igual, redondos, glicerinados, com perfume de mel e tília e muito apreciados na gastronomia. O Muscat da Alsácia é também muito perfumado, intensamente floral e apimentado, combinando bem com algumas sobremesas ou como aperitivo. Pela riqueza de aromas e intensidade frutada casa bem com o tradicional Kugelhopf ou bretzel, bolos secos. Pela frescura adapta-se igualmente bem ao peixe e gera resultados surpreendentes com espargos.

Já o Pinot Gris possui uma grande expressidade organoléptica, pelo que pode também possuir aromas de cogumelos e pinheiro, especiarias, tabaco, pão tostado, mel, manteiga fresca e amêndoa, frutos secos e confitados. De corpo redondo, cremoso, equilibrado, harmonioso, é opulento, esférico e longo na boca, quase voluptuoso. Quanto ao Gewurtztraminer, de cor amarelo dourado, aromas de mel e frutos exóticos (papaia, manga, kiwi), possui uma explosão da paleta aromática com compostos olfactivos como a acácia, a rosa, a violeta e gerânio, constituindo a expressão mais forte de todas as castas em termos de exuberância.
Finalmente, a Pinot Noir - casta de origem da Borgonha (como o Tokay Pinot Gris) - possui duas versões em função da vinificação: o Pinot Noir rosé e Pinot Noir rouge. O Pinot Noir rosé (maceração curta) evoca compota de grenadina, é leve, ligeiro, muito frutado e levemente acidulado e o Pinot Noir rouge apresenta aromas de frutos vermelhos e notas florais e minerais.
A Sylvaner, uma das castas-base, é medianamente vigorosa mas produtiva e regular, originando vinhos leves e frescos. De complexidade limitada consegue todavia, em versões de vinhas velhas, vinhos mais corpulentos, ricos, longos e surpreendentes. Os vinhos alsacianos devem ser servidos frescos, mas não gelados. A temperatura ideal situa-se entre os 8º e 10° para os alsacianos e alsacianos Grands Crus e, entre 5º e 7° para, o Crémant, da Alsácia.
Os copos tulipa de pé longo são os indicados, sendo que, para o Crémant, o ideal será uma flute de cristal longa e fina.

Texto: FÁTIMA IKEN
Fotos: D. R.
Wine 32

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