O NOBEL V.S. Naipaul disse, em entrevista recente, que “a experiência de ir ver o mundo, a curiosidade de olhar e escrever, muda-nos e muitas vezes não sabemos o que pensamos sobre certa experiência até escrevermos sobre ela”. Sendo importante ver outras realidades, ter a possibilidade de interagir com os actores locais, tentar apreender a razão de ser das coisas, não há dúvida que só a reflexão a que escrita nos obriga permite conhecer melhor o que se vai fazendo noutras latitudes, noutros continentes. A vivência nas diversas capitais do vinho (aqui entendidas no conceito da Rede das Capitais dos Grandes Vinhedos), permite-nos ter uma visão global do mundo vitivinícola. O que é que se está a fazer para melhor promover o vinho ou como é que os agentes públicos, em articulação com os agentes privados, desenvolvem programas e projectos com o objectivo de atrair o crescente e cada vez mais qualificado enoturismo, num mundo cada vez mais competitivo. Por mais desenvolvidas que estejam as regiões vitícolas há sempre muito a aprender.
Desta vez, relatamos e tentamos tirar algumas conclusões do que está a acontecer nos vinhedos do Cabo, na África do Sul, onde recentemente decorreu a IX Assembleia-Geral da Rede das Capitais dos Grandes Vinhedos. Já por lá havíamos estado, há cerca de dez anos. Para além da beleza natural, nós portugueses somos seduzidos pelos inúmeros sinais que os nossos antepassados deixaram semeados por estas paragens, não podendo deixar de reflectir sobre o esquecimento a que estão votados. Bartolomeu Dias marca presença imponente numa das principais praças da cidade repetindo-se, como não poderia deixar de ser, no Padrão erigido em sua memória junto ao Cabo das Tormentas que, graças ao seu feito (1488), D. João II rebaptizou de Cabo da Boa Esperança. Aí, sobre o apelido que mais usava e pelo qual ficou conhecido no mundo – Dias – estão esculpidas as armas daquele que era o seu último apelido: Novaes. Dias veio a morrer em 29 de Maio de 1500, quando capitaneava um dos navios da armada de Cabral: depois da descoberta do Brasil, ironicamente, veio a naufragar quando rumava ao “seu” Cabo…
Do outro lado da pequena colina que conduz ao farol do Cabo, outro Padrão evoca Vasco da Gama. António de Saldanha andou também por estas bandas, tendo sido ele que, em 1503, baptizou a montanha que se mantém como referência de toda esta região – a Table Mountain. Ao fim deste tempo, as grandes diferenças notadas centram-se principalmente na menor segurança que hoje se sente, sobretudo a partir do anoitecer; na enorme vitalidade do Victória and Alfred Waterfront - um grande centro comercial situado junto ao porto e aos estaleiros, resultado da recuperação notável dos antigos armazéns portuários; e no crescimento sensível do eno turis mo nas regiões vitícolas que se estendem pelos vales e planícies para norte e este da Cidade do Cabo.
Todos os textos e muitas pessoas com quem tivemos a oportunidade de conversar afirmam a importância do ano de 1994 para a vitivinicultura sul-africana: o fim do Apartheid trouxe uma nova visibilidade internacional aos vinhos da África do Sul. De um país fechado e com os mercados internacionais particularmente sensíveis às questões de natureza política, passou a um país aberto, com a comunidade internacional particularmente atenta à sua evolução e interessada na sua transição pacífica. Curiosamente, a África do Sul considera-se um dos maiores entre os pequenos produtores mundiais… A sua produção não chega aos 3% do total, situação que se tem mantido nos últimos 30 anos. No mesmo período – e só a título de exemplo – a Austrália duplicou a sua área de produção! Contudo, têm ocorrido um conjunto de transformações que têm marcado de forma muito positiva o posicionamento da África do Sul no concerto mundial: a proporção da produção de vinho tinto passou de 13% para cerca de 40%, quer por adaptação dos vinhedos existentes, quer por novas plantações. Por outro lado, as propriedades vitícolas têm-se transformado, adaptando-se para receber os turistas – que têm cada vez mais interesse em conhecer como, onde e por quem são feitos os vinhos que compram, bem como os ambientes rurais dessas propriedades.
Não podemos esquecer que a África do Sul é o mais antigo dos países produtores do Novo Mundo vitícola. Desde o século XVII que aí se produz vinho. As zonas de produção foram testadas. Os produtores conhecem bem as capacidades dos terrenos: os magníficos vales e as planícies de Stallenbosh ou de Paarl, de Constantia ou de Tulbagh, de Helderberg ou de Simonsberg, ou mesmo as mais aristocráticas paisagens de Franschoek Valley – a antiga Olifantshoek. O clima, a composição dos solos, a humidade, as castas mais adequadas a cada terreno, traduzem as características próprias do vinho aí produzido.
Os mercados tradicionais continuam a ser a Holanda e a Grã-Bretanha. No entanto, o mercado doméstico vai despertando da sua letargia, muito devagar e, sobretudo, seguindo um efeito moda… Mesmo assim, a procura vai aumentando cerca de 10% por ano. Há que lhe dar resposta, pois não deixa de ser economicamente interessante.
A nova África do Sul, no seu conjunto, está a construir novos modelos, à procura de um equilíbrio mais estável. Projecto bem difícil de concretizar, depois de um passado próximo que deixou tantas feridas, muitas delas ainda abertas. Contudo, o caminho está a ser feito, todos os dias, de forma segura apesar das muitas dificuldades. Numa terra onde se venera “o mais velho”, a figura tutelar de Nelson Mandela continua a ter a maior influência no filme dos acontecimentos.
Nos dias de hoje, o Black Economic Empowerment (BEE) obriga, com força de lei e para certos efeitos, à assumpção de capital em certas empresas por parte de alguns daqueles que antes eram discriminados. O caminho para o equilíbrio é difícil … mas faz-se caminhando. Entretanto, o enoturismo desta região vai crescendo e estabilizando. As propriedades vitícolas estruturam-se e preparam-se para receber os turistas, nacionais e estran geiros. E isso, hoje, já pode ser feito com magníficos spas, restaurantes ao melhor nível, zonas de descanso perfeitas, excelentes propostas de turismo de natureza ou de turismo activo, recursos humanos competentes. Ou ainda, para quem prefira, o alojamento tão próximo da natureza quanto possível e a vivência com os locais. Na região do Cabo, a segurança parece existir (no entanto, como em quase todo o mundo, mais nas zonas rurais do que nas urbanas). Contudo, o país não é exemplo nesta matéria. E a segurança é uma condição de base para que o turismo se desenvolva. Ora, a África do Sul não transmite essa imagem, apesar de sabermos o esforço que está a ser feito pelas mais altas autoridades para que isso aconteça.
Muito recentemente, foi noticiado que as forças de segurança foram significativamente reforçadas, em cerca de um terço dos seus efectivos. É claro que esse reforço tem em vista o Mundial de Futebol de 2010, cuja presença se sente em todas as afirmações públicas actuais da África do Sul. Não chega: o efeito segurança tem de ser sentido no país como um todo e de forma permanente, independentemente da conjuntura. Voltando ao princípio e seguindo, de novo, Naipaul: “Escrevemos fazendo uso da experiência. De outra forma, estaríamos em férias eternas, onde a vida vai passando e não significa nada, porque não a estamos a usar, não estamos a escrever sobre ela, não estamos a processar a experiência”. Muitos sonham efectivamente com férias eternas; ainda não descobriram que estas não passam de odre vazio. Falta-lhes a matéria-prima “fruto da terra e do trabalho do Homem” (da “Carta do Vinho”, da Assembleia das Regiões Europeia Vitícolas) e falta-lhes, sobretudo, “o processamento”, a forma como a apreciamos, afinal, o sabor da vida.
Texto: MANUEL DE NOVAES CABRAL E SARAH KEUFEN
Fotos: D. R.
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